A insustentável leveza da ideia de felicidade

Por vezes, a noite, durante o nosso sono, traz-nos uma ideia que se transforma num pensamento, materializando-se numa frase que se instala em nós sem pedir licença, assim sem mais nem menos. Não como uma conclusão, nem sequer como uma pergunta formulada até ao fim, mas como uma presença incómoda que acompanha o ritmo das horas e marca o dia. Hoje foi assim, acordei com esta ideia na cabeça, entretanto transformada em pensamento e, consequentemente, materializada nesta frase que me tem acompanhado desde a primeira hora do dia: a insustentável leveza da ideia de felicidade. Eu sei, a formulação remete, inevitavelmente, para o consagrado romance A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera, que transformou a leveza numa imagem filosófica da condição humana, entre a liberdade das escolhas e a ausência de garantias que as acompanha. Não pretendo, contudo, convocá-lo como exercício de exegese literária, mas apenas invocar a inquietação que a insustentabilidade da leveza suscita, no que à possibilidade de sermos felizes respeita: será que a felicidade, precisamente por ser tão desejada e tão difícil de fixar, não transporta também a sua própria forma de leveza e, por isso, de insustentabilidade?

Talvez a felicidade seja, antes de mais, uma ideia leve porque tende a escapar a qualquer definição rigorosa. É uma palavra que todos usamos com aparente familiaridade, mas que se dissolve logo que tentamos fixá-la. Será felicidade a tranquilidade de uma manhã sem urgências? A realização de um projeto longamente perseguido? A mesa partilhada com amigos? O silêncio de uma casa quando todos estão bem? A certeza, rara e quase sempre provisória, de estarmos exatamente onde devemos estar?

A dificuldade começa quando confundimos a felicidade com um estado permanente. Herdámos, em grande medida, a expectativa de que a vida bem vivida deve culminar numa espécie de estabilidade emocional contínua: uma harmonia duradoura entre o que desejamos, o que temos e o que somos. Procuramos essa condição nos afetos, na carreira, na segurança material, na saúde, nas viagens, no reconhecimento dos outros e, cada vez mais, nas imagens que construímos de nós próprios para consumo público (as redes sociais são um exemplo pragmático disso). Mas a vida real, felizmente ou infelizmente, não permite viver sob esse regime de permanência.

Não há felicidade que não seja atravessada pela consciência da sua fragilidade. Mesmo nos momentos de maior plenitude, existe muitas vezes uma sombra discreta: sabemos que nada está definitivamente garantido. O abraço termina, o verão passa, os filhos crescem, as pessoas que amamos envelhecem, os projetos concretizam-se e, uma vez alcançados, revelam a inevitável pergunta seguinte: e agora? A felicidade, quando existe, raramente se apresenta como uma posse, parece-se mais com uma visita. Entra sem ruído, senta-se por instantes à nossa mesa e, quando damos por ela, já partiu.

E é talvez essa leveza que a torna insustentável. Queremos agarrá-la, transformá-la em prova, em garantia, em património pessoal. Queremos poder dizer: “cheguei”. Mas a felicidade não é uma meta com placa indicativa, nem um território que se ocupa de uma vez por todas. É feita de momentos e de relações, depende de circunstâncias que não controlamos inteiramente e exige disponibilidade para reconhecer o bem quando ele se apresenta sob formas pouco espetaculares.

O problema é que vivemos numa época pouco preparada para a subtileza. A nossa cultura tende a transformar a felicidade em obrigação. Não basta vivermos, espera-se que pareçamos realizados. Não basta trabalharmos, devemos demonstrar propósito. Não basta descansar, temos de o converter, ao descanso, em experiência memorável. Não basta amar, é preciso expor a evidência desse amor. O que deveria ser uma possibilidade íntima torna-se, assim, um imperativo e quase uma métrica de desempenho social.

Daí a estranha ansiedade que tantas vezes acompanha a procura de felicidade. Quanto mais a perseguimos como objetivo absoluto, mais facilmente ela se afasta. Começamos a medir a nossa vida por comparação com as vidas cuidadosamente editadas dos outros, interpretamos os dias normais como falhanços e sentimos culpa por não estarmos suficientemente gratos, realizados ou entusiasmados. A tristeza, neste contexto, deixa de ser uma emoção legítima e passa a parecer um erro de gestão pessoal. O cansaço surge como uma falha de atitude. A dúvida torna-se sinal de incompetência existencial.

Mas talvez seja necessário defender a imperfeição de uma vida humana. Não como resignação, muito menos como elogio da desistência, mas como condição de lucidez. Uma existência com sentido não é aquela em que desaparecem a perda, a frustração ou o medo. É aquela em que conseguimos integrá-los numa narrativa maior sem que eles nos definam por completo. A felicidade não exige a ausência de dor. Exige, talvez, que a dor não tenha a última palavra.

Há uma maturidade particular em aceitar que podemos ser felizes sem estarmos eufóricos, realizados sem termos resolvido todos os problemas e amados sem que todos os vínculos sejam perfeitos. Podemos ter uma vida boa e, ainda assim, atravessar períodos de dúvida, de luto, de exaustão ou de desencanto. Aliás, é precisamente porque conhecemos a precariedade das coisas que certos instantes ganham densidade: um telefonema inesperado, uma conversa sem pressa, uma música que nos devolve um tempo perdido, o regresso a casa, uma gargalhada ou uma memória que permanece.

Assim sendo, talvez devêssemos falar menos de felicidade e mais de presença. Estar presente é reconhecer que o agora não precisa de ser extraordinário para ter valor. É ouvir verdadeiramente quem está connosco, reparar numa rua conhecida, agradecer sem transformar a gratidão numa palavra de ordem, fazer bem o trabalho que temos entre mãos, aceitar que há dias apenas suficientes.

Por sua vez, a leveza da ideia de felicidade torna-se insustentável quando lhe pedimos que nos salve de tudo: da passagem do tempo, da morte, da solidão, das escolhas erradas e das partes de nós que ainda não compreendemos. Nenhuma felicidade poderá cumprir essa tarefa. Nenhum amor, profissão, projeto ou conquista nos dará imunidade perante a condição humana.

Numa interpretação mais honesta, talvez a felicidade seja, por isso, menos uma conquista do que uma disposição: a capacidade de não desperdiçar os momentos em que a vida, apesar de tudo, se revela habitável. Não uma promessa de permanência, mas uma atenção renovada ao que merece ser vivido. Não a euforia de quem acredita ter vencido o mundo, mas a serenidade de quem percebe que, por instantes, o mundo deixou de pesar tanto.

Comentários

Mensagens populares