Ermelo e as suas lendas
Há terras pequenas que compensam o tamanho com a quantidade de estórias que carregam, e Ermelo, freguesia modesta do concelho de Mondim de Basto, é uma delas. Não tem catedrais nem batalhas famosas com o seu nome em livros escolares, mas tem qualquer coisa mais rara: um punhado de lendas que, juntas, atravessam a fundação de Portugal, uma das suas batalhas mais decisivas, e ainda um tesouro escondido debaixo da serra vizinha.
A estória mais antiga remonta a um tempo em que Portugal ainda não era Portugal, apenas um território disputado a norte do Douro por famílias rivais, os Sousões e os Nouguelas. Um dos cavaleiros Nouguelas, aproveitando a embriaguez dos adversários, terá emboscado sete condes Sousões enquanto dormiam, matando-os e vazando-lhes os olhos com um punhal. Um episódio de crueldade que a memória popular preferiu conservar em vez de esquecer, talvez porque a vingança que se seguiu foi igualmente implacável: o responsável acabou perseguido e degolado junto à Portela do Vade.
Ainda hoje se diz, segundo o antigo Livro Velho de Linhagens de D. Pedro, que os corpos dos sete condes repousam na Igreja Matriz de Atei, a poucos quilómetros de Ermelo, onde a porta principal ostenta sete figuras esculpidas em granito e um dos altares laterais é dedicado ao culto de Nossa Senhora dos Condes, como se a terra quisesse guardar prova física de uma história que, de outra forma, pareceria demasiado bárbara para ser verdade.
Mas é outra lenda, mais tardia e mais gloriosa, que verdadeiramente coloca Ermelo no mapa da história nacional. Corre a tradição de que, durante a Batalha de Aljubarrota, a 14 de agosto de 1385, D. João I se viu separado da proteção dos seus cavaleiros e em sério perigo de vida. Terá gritado, em desespero, “Ajuda-me, companhão!”, e foi Gonçalo Vaz, o Moço, um simples peão natural de Ermelo, quem correu em seu auxílio e lutou com bravura suficiente para salvar o rei. Terminada a batalha, ao saber de onde vinha o seu salvador, D. João I concedeu-lhe direitos e regalias que se estenderiam aos seus descendentes, através de um decreto que ficou conhecido, precisamente, como “Ajuda-me Companhão”. O mais curioso é que esta lenda não fica suspensa apenas na memória oral: os documentos desse decreto ainda hoje estarão conservados na Junta de Freguesia de Ermelo, como se a história tivesse decidido deixar registo oficial.
E depois há a lenda que talvez mais se preste a ser contada à lareira, numa noite de Inverno, com as crianças já meio a dormir mas ainda a fingir que ouvem. Na vertente dos Palhaços, no Monte Farinha, voltada para a vizinha freguesia de Vilar de Ferreiros, diz-se que existe a entrada de uma mina secreta com quase oito quilómetros de extensão, escavada em tempos mouriscos e que corre até sair junto ao Rio Tâmega, na Ribeira de Pedra Vedra, caminho por onde os mouros levariam os cavalos a beber. À entrada dessa mina, vigiando um tesouro imenso, vivia uma serpente. Não uma serpente qualquer, mas uma princesa encantada sob essa forma, condenada a guardar o ouro escondido até que alguém tivesse a coragem, e o conhecimento certo, de a libertar. Para desfazer o feitiço, seria preciso ler o Livro de São Cipriano ao contrário e picar a cauda do animal com um alfinete de ouro. Só assim a serpente se transformaria de novo em mulher, e entregaria as riquezas guardadas, entre as quais um lendário bezerro de ouro que ninguém, ao que se sabe, encontrou até hoje.
Esta lenda pertence, com rigor, ao Monte Farinha e não a Ermelo especificamente, mas é parte do mesmo imaginário lendário partilhado por todas as freguesias do concelho, Ermelo incluída, situada a curta distância dessa mesma serra que serve de moldura a tantas outra estórias. A figura da moura, ou princesa encantada em forma de cobra, não é, aliás, exclusiva desta região: percorre praticamente todas as serras do Norte de Portugal, quase sempre como eco simbólico da presença árabe que o território conheceu séculos antes de se tornar cristão.
Talvez seja esse, no fundo, o papel que estas três lendas cumprem juntas. Não provam nada. Não há vestígios arqueológicos dos sete condes, não há registo histórico rigoroso do grito de D. João I, e o bezerro de ouro, ao que consta, continua por encontrar. Mas convenhamos: entre um facto histórico esquecido e uma boa lenda bem contada, Ermelo escolheu a opção mais rentável. Os sete condes não precisam de ossos para continuar enterrados na memória, Gonçalo Vaz não precisa de arquivo para continuar a gritar “ajuda-me, companhão”, e a serpente do Monte Farinha, goste-se ou não, já dura mais séculos do que qualquer tesouro que alguma vez tenha guardado.

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