Da citação e da intertextualidade em tempos de IA

Coetaneamente, com o advento da inteligência artificial (IA) e a constante discussão pública e preocupação em torno da originalidade e autoria em tudo o que produzimos, lembrei-me de uma breve reflexão académica que fui chamado a fazer numa cadeira de comunicação, à data, intitulada de "Práticas Discursivas", sobre a distinção, aqui entre nós, essencial nos tempos que correm, dos conceitos de "citação" e "intertextualidade".

Não querendo maçar-vos com a simples paráfrase de um trabalho académico datado, já com mais de 15 anos, e acreditando que o público deste espaço vai muito para além da academia, optei por partilhar convosco um novo texto sobre este assunto que, assim espero, possa constituir um contributo para uma discussão tão presente nos nossos dias.

Ninguém fala do nada. Sempre que abrimos a boca, ou pegamos numa caneta, estamos já a dialogar com tudo o que foi dito antes de nós — isto é, frases que ouvimos, livros que lemos e discursos que nos marcaram sem sabermos exatamente porquê. Bakhtin, no final dos anos 20 do século passado, dizia, e com razão, que o discurso humano é essencialmente citacional, na medida em que falamos sempre a partir de outras vozes, mesmo quando pensamos estar a criar algo inteiramente nosso (Bakhtin & Volochínov, 1929/2004).

Mas há formas muito diferentes de deixar essas outras vozes entrarem no nosso discurso. A mais óbvia é a citação, em que reproduzimos, entre aspas ou em itálico, aquilo que outro disse, atribuindo-lhe a autoria e mantendo intacta a distância entre quem fala agora e quem falou antes. A citação fiel, ou seja, aquela que corresponde palavra por palavra ao texto original, é rara, e talvez mais rara ainda seja a citação inteiramente neutra, porque quem cita escolhe, corta e contextualiza, e essa escolha já é, em si própria, uma interpretação (Duarte, 2009). Antoine Compagnon, citado por Rebelo (2000, p. 63), resumiu isto de forma elegante quando afirmou que "a citação é, antes de mais, uma leitura" e não uma cópia passiva, mas antes um ato de reapropriação (Rebelo, 2000).

A intertextualidade, por sua vez, é outra coisa. Não há aspas, não há itálico, não há sequer a intenção de assinalar uma fronteira entre "o que eu digo" e "o que outro disse antes". Julia Kristeva definiu-a com uma imagem que se tornou clássica: todo o texto é "um mosaico de citações", "absorção e transformação" de textos anteriores (Kristeva, 1969, p. 66). Aqui, as vozes desaparecem enquanto vozes identificáveis, fundindo-se na nova estrutura e tornando-se parte do tecido do texto sem, contudo, deixar rasto visível da sua origem.

É esta diferença, entre conservar a marca de quem falou e apagá-la por completo, que separa verdadeiramente "citação" de "intertextualidade". Por exemplo, no jornalismo, essa distinção tem consequências concretas. Quando um jornal cita uma fonte política, económica ou desportiva, está a preservar-lhe o estatuto: aquela pessoa disse aquilo, e o jornal apenas relata (Rebelo, 2000). Quando, pelo contrário, o jornal absorve um conteúdo sem o atribuir a ninguém em concreto, apresentando-o como senso comum, como evidência, como se fosse voz do próprio jornal, está a neutralizar o enunciador original, transferindo a responsabilidade da afirmação para um lugar mais difuso e menos contestável (Rebelo, 2000).

Não é por acaso que esta escolha se torna, por vezes, uma estratégia deliberada. Quem já detém poder ou visibilidade tende a preferir que o seu discurso seja absorvido como intertextualidade — ou seja, quer que as suas ideias circulem como se fossem óbvias, do domínio comum, dispensando a necessidade de serem constantemente atribuídas a alguém. Já quem procura conquistar visibilidade prefere o regime contrário: isto é, quer ser citado, quer que o seu nome apareça associado às suas palavras, porque é isso que lhe confere existência pública (Rebelo, 2000).

Entre estes dois extremos — a citação clara, que distingue as vozes, e a intertextualidade plena, que as funde até as tornar indistinguíveis — vivemos todos os dias, sem disso nos darmos conta, numa negociação constante sobre quanto de nós mesmos e quanto dos outros colocamos naquilo que dizemos. Talvez seja esse, no fundo, o destino de qualquer texto: nunca ser inteiramente original, nem inteiramente alheio, mas antes uma espécie de fronteira móvel entre a voz que fala agora e todas as vozes que a tornaram possível.

Talvez seja por isso que esta distinção, formulada muito antes de qualquer algoritmo, nos ajuda hoje a pensar com maior clareza sobre a IA e as suas implicações. Um texto gerado por inteligência artificial pode reproduzir, recombinar ou até citar formulações anteriores, mas nem sempre torna visíveis as suas fontes, os critérios dessa seleção ou a cadeia de responsabilidades que sustenta o que apresenta. O resultado é, muitas vezes, uma assimilação em larga escala, capaz de tornar quase irreconhecível a fronteira entre a voz própria e a voz alheia. Se Bakhtin tinha razão ao afirmar que nenhum discurso nasce do nada (Bakhtin & Volochínov, 1929/2004), a IA não criou o problema da originalidade: tornou-o apenas mais veloz, mais vasto e mais difícil de julgar. E é precisamente por isso que as questões da autoria, da atribuição e da responsabilidade discursiva se tornaram tão urgentes no nosso tempo.

Referências

Bakhtin, M. M., & Volochínov, V. N. (2004). Marxismo e filosofia da linguagem (M. Lahud & Y. F. Vieira, Trads.). Hucitec. (Obra original publicada em 1929)

Duarte, I. M. (2009). Citação. Em C. Ceia (Coord.), E-Dicionário de Termos Literários. https://edtl.fcsh.unl.pt/encyclopedia/citacao

Kristeva, J. (1969). Sémeiotikè: Recherches pour une sémanalyse. Éditions du Seuil.

Rebelo, J. (2000). O discurso do jornal: O como e o porquê. Editorial Notícias.

Walty, I. (2009). Intertextualidade. Em C. Ceia (Coord.), E-Dicionário de Termos Literários. https://edtl.fcsh.unl.pt/encyclopedia/intertextualidade

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