Moldura
Não estamos todos, é certo. Nenhuma fotografia de família está realmente completa: há sempre alguém que não pôde vir, quem chegou mais tarde, quem ficou do outro lado da câmara, quem já não está ou, até, quem está mas, por escolha ou razões de força maior, não se faz presente.
Ainda assim, reunimo-nos. E, por umas horas, fazemos aquilo que as famílias fazem melhor: ocupamos espaço, repetimos estórias que fazem parte da história e lendas familiares, comentamos ausências, distribuímos crianças por colo alheio e, lá pelo meio ou mesmo no final, tentamos organizar uma fotografia em que ninguém feche os olhos. Não há algoritmo capaz de ordenar devidamente uma família. Há sempre muitas versões da mesma história, demasiadas afinidades improváveis, múltiplos lugares que cada um ocupa sem que isso se consiga explicar, pelo menos, de modo lógico.
A inteligência artificial transformou a fotografia original numa pintura renascentista, que aqui partilho, como se tivéssemos sido retratados pelo próprio Raffaello. E, de repente, parecemos mais solenes do que somos. Há nesta imagem uma espécie de eternidade emprestada: a luz dourada, as árvores, a casa antiga ao fundo, as poses improvavelmente compostas. A verdade, porém, é que pouco antes, ou pouco depois, alguém teria feito uma piada, uma criança teria decidido não colaborar, e alguém perguntaria se já era hora de comer.
Talvez seja isso, entre outras estórias, que a pintura não mostra, mas a família guarda: a imperfeição viva do momento. Os presentes não estão ali apenas para a fotografia, estão para confirmar, uns aos outros, que ainda pertencem à mesma história, ainda que com estórias diferentes. E os ausentes, ou seja, os que faltaram por distância, circunstância, vontade ou tempo, não deixam de fazer parte dela. Apenas não ficaram naquela moldura.
No fim, é isto que uma família é. Uma fotografia sempre incompleta, mas nunca inteiramente vazia.

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