Memória Talhada em Madeira


Há objetos que não precisam de palavras para contar uma história. Basta olhar para as marcas na madeira, para as fendas que o tempo desenhou, para o verniz gasto que já não se sabe bem onde começou.

Este peixe de madeira, moldurado como se fosse uma janela para outro lugar, é um desses objetos. Não é apenas decoração, é memória talhada à mão, provavelmente por alguém que conhecia bem o mar, ou que sonhava com ele. As marcas talhadas, os riscos irregulares, o desgaste natural da madeira: tudo isto fala-nos de tempo, de uso, de passagem.

Gosto particularmente de como está suspenso, num hall de entrada ou de saída, dependendo das idiossincrasias do observador, dentro da própria moldura, como se nadasse num espaço vazio, entre o passado de onde veio e o presente onde agora repousa, quase leve, apesar do peso da madeira maciça. Há algo de simbólico nisto: as coisas que carregamos, como as nossas memórias, também ficam, de certa forma, suspensas entre onde estivemos e onde estamos agora.

Talvez seja isso que mais me atrai neste objeto artesanal: não a perfeição da forma, mas a imperfeição que o torna verdadeiro. As rachaduras não escondem, contam. E, nesse sentido, este peixe de madeira é uma pequena lição de humildade, particularmente, sobre como a beleza pode nascer precisamente daquilo que o tempo desgasta.

Aqui entre nós, às vezes, o mais bonito não é o que permanece intacto, mas o que resiste, apesar de tudo e com todas as suas marcas, e ainda assim nos faz parar para olhar.

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