A Burocracia do Movimento
Mais um dia de férias, mais uma preciosidade encontrada. Parece um quadro saído de um qualquer movimento artístico, com um pé na arte nova e outro numa certa irreverência ready made. E, no entanto, é apenas isto: uma moldura cheia de pernas.
À primeira vista, o que vemos é uma grelha. Filas e colunas bem arrumadas, cada quadrado a conter uma perna diferente: botas, meias, padrões improváveis, cores que não pedem licença, saltos altos, canos curtos, alguns troncos interrompidos sem cerimónia. Um inventário de membros, como se alguém tivesse decidido catalogar a humanidade a partir do joelho para baixo.
Há qualquer coisa, diria, de burocrático nesta organização: uma espécie de arquivo visual onde a vida é arrumada em compartimentos, etiquetada e classificada. E, ao mesmo tempo, há um humor subtil: por mais que se tente pôr ordem no mundo, as pernas não alinham todas da mesma maneira. Umas estão inclinadas, outras em movimento, outras, ainda, parecem prestes a sair do quadro. Nenhuma coluna é inteiramente disciplinada. E isso alegra-me, a ideia de um mundo disciplinado e perfeito causa-me alguma estranheza, confesso.
Talvez seja por isso que este objeto me chamou a atenção em dia de férias e, aqui entre nós, de despedidas também. Há nele uma tensão curiosa entre o impulso de controlar e a inevitável desobediência do gesto. É como se alguém tivesse tentado pôr a marcha humana sob controlo, quadrícula a quadrícula, e a própria marcha tivesse respondido: “Não, obrigado. Continuarei a andar como bem entender.”
Podemos ler este quadro como um retrato da diversidade, claro. Cada perna é um estilo, uma escolha, um fragmento de identidade. A forma como calçamos o mundo diz muito sobre a forma como o percorremos. Uns preferem a sobriedade de um tom neutro; outros não dispensam o drama de uma bota vermelha; há quem se esconda atrás de padrões discretos e quem se anuncie, sem pudor, com estampados quase impossíveis de ignorar.
Mas, se quisermos ir um pouco mais longe na divagação (e as férias, como já vos disse num outro texto por aqui, existem também para isto), podemos vê-lo como um comentário silencioso ao modo como nos movemos pela vida. No fundo, somos uma coleção de pernas em trânsito, cada uma a tentar encontrar o seu caminho no meio de uma grelha que não escolhemos inteiramente: horários, obrigações, rotinas, normas, regulamentos, tudo a tentar alinhar aquilo que, por natureza, tende a desviar-se.
Em dia de trabalho, talvez passasse por este quadro sem lhe dedicar mais do que um olhar rápido. Em dia de férias, paro. Olho com atenção. Reparo. E dou por mim a pensar que há uma certa sabedoria em arrumar, numa só moldura, todas estas pernas possíveis. É como se fosse um lembrete discreto de que podemos sempre escolher o modo como nos levantamos da cadeira, o ritmo com que caminhamos, o tipo de pegada que deixamos neste mundo.
Nem sempre conseguimos parar para reparar nestas pequenas coisas, mas hoje foi diferente. Hoje, este pequeno “inventário de pernas” tornou-se um convite: a perguntar-me que pernas uso eu para atravessar os dias, que passos dou, em que direção, com que tipo de leveza ou peso.
Talvez seja isso que mais agrade neste quadro: não quer responder a nada. Limita-se a apresentar variações. E deixa-nos o trabalho de decidir o que fazer com elas.
Por isso, fica esta divagação e, já agora, a pergunta, mais uma vez, sem qualquer pretensão de resposta: se fôssemos reduzidos a uma única perna numa destas caixas, que versão de nós gostaríamos que ficasse pendurada na parede?

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