Blazing Saddles

​Isto de estar de férias, na verdadeira acepção do termo, com tempo para tudo, até mesmo (re)ver filmes que nos marcaram noutro espaço e tempo, tem o seu encanto. 

Vi Blazing Saddles ainda na adolescência, numa altura em que a maior parte das piadas me passava ao lado sem eu perceber bem porquê, e ainda assim, o filme ficou-me na memória. Não pelas pistolas, nem pelos cavalos, nem sequer pela paródia óbvia do género western — ficou porque era, sem que eu soubesse nomear isso à data, uma lição de como se destrói um preconceito: não com um discurso solene, mas a rir dele até ele ficar do tamanho ridículo que sempre teve, ou deveria ter tido.

Mel Brooks lançou o filme em 1974, numa altura em que a América ainda digeria mal as próprias contradições raciais, e decidiu fazer algo que, embora brilhante, a maioria dos realizadores sérios não teria coragem de tentar: pôr um homem negro, Cleavon Little, como novo xerife de uma cidadezinha de colonos brancos, escolhido de propósito por um político corrupto que queria assustar os habitantes e comprar-lhes as terras a preço de saldo. O plano falha, claro, porque o xerife é competente, o pistoleiro decadente que se torna seu amigo (o brilhante Gene Wilder, no papel do Waco Kid) é mais lúcido do que aparenta, e a cidade inteira de racistas convictos acaba a precisar precisamente do homem que tinha jurado expulsar.

O truque do filme não é subtil, mas é eficaz: em vez de explicar por discursos longos que o racismo é estúpido, como faziam os dramas “sérios” da época, Brooks simplesmente mostra os racistas a serem ridículos — covardes, ignorantes, incapazes de reconhecer competência mesmo quando ela lhes salva a pele. Não pede ao público que sinta pena de ninguém; pede que se ria da imbecilidade concentrada de quem odeia sem motivo. É sátira no sentido mais antigo e mais afiado da palavra: não ataca as vítimas do preconceito, ataca quem o pratica, expondo-o ao ridículo público até ele perder qualquer verniz de seriedade.

O que torna Blazing Saddles ainda mais interessante, revisto décadas depois, é a sua disposição para destruir tudo — inclusive o próprio filme. No terceiro ato, os personagens saem literalmente do set de filmagem, invadem o estúdio ao lado, atravessam o parque de estacionamento e acabam a assistir à própria première em Hollywood. É paródia a engolir-se a si mesma, um filme que se recusa a fingir seriedade até ao fim, porque sabe que a seriedade é exatamente o disfarce que os preconceitos preferem usar.

Há uma pergunta incómoda que vale a pena fazer, pouco mais de meio século depois: conseguiria este filme ser feito hoje? A resposta honesta é provavelmente não, pelo menos não da mesma forma, e não porque o mundo tenha deixado de precisar dele, porque precisa, talvez mais do que nunca, mas porque perdemos, entretanto, alguma tolerância coletiva para rir de coisas antes de as condenar solenemente. Blazing Saddles aposta tudo no princípio de que rir de um preconceito, mostrando-o em toda a sua estupidez, pode ser mais eficaz do que denunciá-lo com gravidade. Não sei se ainda acreditamos nisso, mas continuo a achar que o filme tinha razão.

Talvez seja esse o motivo pelo qual, ainda hoje, o considero uma excelente paródia, e não apenas uma curiosidade datada da adolescência: poucos filmes tiveram a lucidez de perceber que o oposto do preconceito não é sempre a solenidade — às vezes é a gargalhada certa, dirigida à pessoa certa, pelo motivo certo.

Se puderem, (re)vejam este filme e (re)descubram como ressoa tão bem ainda hoje. 

Comentários

Mensagens populares