Entrada do dia


Hoje foi um dia intenso, feito de camadas diferentes umas das outras, para não nos cansarmos da mesmice da rotina e dos seus malefícios à condição humana.

A manhã começou com o abastecimento semanal num dos hipermercados locais, ritual obrigatório quando estou por cá. Nesta altura do ano, a novidade é mesmo a invasão das terras de Basto pelos seus filhos. Alguns vêm do Porto, de Lisboa, de Espanha mas a maioria chega do norte da Europa: Alemanha, Luxemburgo, Bélgica, Países Baixos, França, and so on. As estradas nacionais enchem-se de carros topo de gama, com matrículas das mais diversas geografias, todos a convergir para as mesmas aldeias, os mesmos largos, as mesmas festas locais e casas de família.

Confesso que nunca percebi bem esta lógica de ostentação de quem regressa ao berço de onde partiu por efetiva necessidade social, familiar e económica. É como se ainda houvesse algo a provar a quem ficou, talvez por conformismo, covardia de nunca ter arriscado a partida ou, até mesmo, vontade própria, o que é legítimo. Há aqui, arrisco, uma espécie de teatro silencioso, de periodicidade, em regra, anual, em que o sucesso material se transforma em prova pública, estacionada à porta de casa, para quem quiser (ou não) reparar.

Mas o dia seguiu. A tarde foi dedicada ao trabalho de investigação académica para a tese. O cronograma é ambicioso, e o dia? Bem, obstinadamente, continua a ter apenas vinte e quatro horas. Entre trabalho, obrigações académicas e vida pessoal, é preciso encontrar espaço para respirar, o que, no dia a dia, nem sempre é fácil. Mesmo assim, tenho conseguido velejar por entre as dificuldades e não me perder em becos sem saída ou caminhos apertados. Estando de férias, com todas as pausas que isso implica e os riscos para o trabalho académico, o ritmo não esmoreceu. Consegui conciliar descanso e investigação, sobretudo, aproveitando que o trabalho está em standby. Portanto, acho que é isto: continuar.

Há pouco, terminei mais uma caminhada por aqui. Em três dias, já lá vão cerca de trinta quilómetros percorridos: nada mau, digo eu. A verdade é que o tempo tem ajudado, e a natureza do Alvão, generosa como sempre, também.

Voltando à sensação, por estes dias, de ser quase um estrangeiro em terras de Basto: tenho para mim que todas as viagens, por mais longas que sejam, são sempre circulares. Como a de Ulisses, ou Odisseu, dependendo se a vossa matriz cultural é romana ou grega. Partimos, é certo, e por vezes com destinos que nada têm de heróico: uma oportunidade de trabalho, uma necessidade económica ou uma vida que se procura construir noutro lugar. Mas há sempre, latente, a promessa (ou a condenação, dependendo do dia) do regresso.

Talvez seja essa circularidade que explica também os carros topo de gama e as matrículas estrangeiras: não é apenas ostentação vazia, é também uma forma — talvez a única disponível para alguns — de dizer: “voltei, e trouxe provas de que a partida valeu a pena”. Ulisses tinha as suas cicatrizes e as suas histórias para provar a viagem; os emigrantes de hoje têm, por vezes, apenas e somente a carroçaria brilhante à porta de casa dos pais ou, quando conseguem, da casa que foram construindo com o resultado e esforço do seu trabalho numa pátria que não é a sua.

Não sei se esta é a forma mais nobre de contar uma odisseia. Mas é, também ela, uma forma de contar.

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