À Porta de Casa

Há casas que têm uma maneira própria de nos receber. Não é apenas a chave, o cheiro das divisões fechadas durante algum tempo, a sombra fresca do corredor ou a mesa onde, mais cedo ou mais tarde, alguém pousará o pão, o vinho e a conversa. São também os pequenos sinais que ficaram ali antes de nós, quase sempre sem legenda, à espera de que alguém repare neles e lhes reconheça o lugar.

Na casa da família, em Ermelo, é Santo António quem está à entrada. A imagem encimada sobre a porta da casa principal terá sido escolhida pela minha avó, e há qualquer coisa de muito seu nessa escolha: um santo à porta, a guardar chegadas, partidas, visitas, regressos e todas as coisas que uma casa presencia sem nunca comentar.

Poderia ser apenas uma imagem religiosa. Mas, com o tempo, estas coisas deixam de ser apenas aquilo que parecem. Tornam-se uma espécie de herança discreta. Uma escolha de alguém que já não está connosco, mas que continua presente na forma como olhamos para a casa, para a terra e para os gestos que herdámos sem os termos pedido.

E há aqui uma curiosidade que me diverte particularmente. Ermelo celebra São Vicente, já Lisboa, cidade a que regressarei e onde a vida corre num ritmo completamente diferente, também o tem inscrito na sua história mais antiga. São Vicente aparece no símbolo de Lisboa, ligado à nau e aos corvos, e a tradição coloca-o no centro da memória religiosa da cidade. Mas, quando chega junho, Lisboa não se entrega a São Vicente: entrega-se a Santo António, às ruas cheias, às marchas, aos manjericos, às sardinhas e à convicção coletiva de que, por uma noite, toda a gente pertence ao mesmo bairro.

Em Ermelo, pelo contrário, é São Vicente quem chama as pessoas. Agosto chega com os seus regressos, com as famílias que se voltam a reunir, com os emigrantes, os amigos de sempre e os amigos que só aparecem quando há festa na terra. A celebração em sua honra realiza-se no segundo fim de semana de agosto, com procissão e arraial, numa escala que nada tem da imensidão lisboeta, e talvez por isso tenha tanto significado.

Entre uma coisa e outra, fica Santo António, à porta da casa. Não o Santo António monumental das festas de Lisboa, nem o santo dos casamentos e das promessas que tantos conhecem. Este é o Santo António da minha avó, colocado ali provavelmente sem imaginar que, muitos anos depois, alguém haveria de parar para pensar na coincidência. Ou talvez imaginasse, nunca saberemos. As avós costumam saber que as casas não se fazem só de paredes, fazem-se dos símbolos que escolhemos deixar nelas.

E assim se juntam, numa mesma entrada, Lisboa e Ermelo. O santo popular e o santo padroeiro. A cidade que se celebra em junho e a aldeia que se reúne em agosto. O lugar para onde se vai trabalhar, depressa e entre horários, e o lugar onde ainda se pode caminhar sem destino pelas estradas e caminhos da serra.

No fim, talvez seja isso que uma casa de família preserva melhor do que qualquer álbum: não apenas o passado, mas as ligações improváveis que o passado vai criando. Uma imagem sobre a porta. Uma avó. Um santo. Uma aldeia. Uma cidade. E a certeza de que, mesmo quando seguimos viagem, há sempre qualquer coisa que fica à nossa espera.

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