Cesco

O Cesco está, neste momento, a viver o seu melhor argumento contra um regresso, que se aproxima: instalado num sofá exterior, entre almofadões desirmanados, orelha atenta a qualquer coisa que se mova entre os vasos, um olho semicerrado com a preguiça de quem já decidiu que este é, definitivamente, o seu território. É difícil, olhando para ele, lembrar-me que há poucas semanas era ainda um gato de apartamento, habituado a janelas fechadas e ao ruído constante de uma cidade que nunca se cala inteiramente, que se assustava com tudo o que estivesse para lá das portas de casa.

A verdade é que os gatos negoceiam a vida com uma honestidade que os humanos já perderam. Não fingem entusiasmo por conveniência, nem disfarçam desagrado por educação. Se o Cesco parece feliz aqui, é porque está, não há nele o cálculo social de “parecer bem” para quem olha. E é precisamente essa ausência de fingimento que torna o seu contentamento tão convincente: um gato não tira fotografias para o Instagram a fingir que adora o campo. Ou gosta, ou volta lá para dentro.

O regresso à cidade, no fim da próxima semana, vai ser uma cerimónia silenciosa de reajustamento. O Cesco vai voltar a ser um gato de portas fechadas e janelas sem varanda, a trocar o pátio de pedra por um apartamento sem acesso direto ao exterior, o som dos pássaros por buzinas ao fundo. Não vai fazer disso um drama, os gatos não fazem dramas, apenas ajustes: mas há qualquer coisa de triste em observar uma criatura que descobriu, ainda que temporariamente, uma versão mais expansiva de si mesma, e que vai ter de a dobrar de novo para caber num espaço bem mais contido.

Talvez seja este o paralelo que vale a pena reter, mais do que qualquer lição sobre gatos: também nós, depois de dias assim, guardamos por uns tempos essa sensação de espaço a mais que a rotina normal não costuma dar e, por isso, demoramos sempre mais do que gostaríamos a admitir que o regresso, por mais necessário que seja, também custa sempre. O Cesco, pelo menos, tem a vantagem de não ter de fingir que não custa. 

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