Andorinhas
Enquanto eu andava, qual flâneur contemporâneo, sozinho pelas ruas de Mondim, sem destino fixo, com uma única paragem: a barbearia do Armando, entretido a observar fachadas, gente e o ritmo lento da vila, a minha mãe, em Ermelo, ia produzindo a (re)decoração do pátio.
O resultado? Bem, a ocupação de uma das paredes, na parte interior do telheiro, onde temos uma pequena sala de estar improvisada, por andorinhas. Cinco, para ser exato. Ou melhor, quatro em voo e uma a cumprir outra função, talvez mais próxima da vigilância, no centro de uma peça de barro que também pode ser ninho, brasão, abrigo ou simples capricho cerâmico. Lá em cima, três pequenas cabeças erguem os bicos, numa exigência muda e muito antiga.
A minha mãe tinha feito aquilo durante a manhã. Não me deu qualquer nota explicativa da obra, mas também não perguntei se existia, nem a pedi. Há uma altura na vida em que se percebe que pedir explicações sobre uma obra de decoração doméstica, já acabada, pode ser uma forma muito eficaz de estragar a magia do mistério. E, no caso concreto, o mistério, pelo menos para mim, é razoável: por que motivo se fixa uma ave, ainda que de cerâmica, numa parede? Por que se organiza um voo de cerâmica sob um teto de madeira? Ou por que se põe um ninho a mirar para o pátio como se estivesse à espera de notícias?
Não encontrei respostas, e ainda bem. As andorinhas reais têm uma vantagem evidente: chegam, partem e não justificam nada. Estas não. Ficam. E, por ficarem, obrigam-nos a passar por baixo delas, a olhar para cima, quando estamos sentados, mais ou menos entregues aos sofás que ali estão, e a reparar naquela parede que antes não tinha interesse nenhum, por estar despida de qualquer objeto ou adereço.
Será esta uma definição aceitável de arte doméstica? Qualquer coisa que altera a casa sem pedir licença e transforma uma passagem habitual num lugar onde, ainda que por breves momentos, somos obrigados a suspender a nossa própria rotina.
Hoje, o pátio ganhou aves que não voam. E eu, que tinha saído para vaguear, regressei com a sensação de que alguém tinha colocado uma pergunta no alto da parede.
Não sei qual é. Mas, por enquanto, basta-me que esteja ali.

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