Mondim, Xanto e um Mistério
Hoje o dia começou bem. Em Mondim, numa manhã aproveitada para deambular pela vila, enquanto visitava as diferentes "capelinhas" para satisfazer o caderno de encargos que me fora entregue em Ermelo, mais propriamente na Várzea, e aguardava também que a oficina local tratasse da limpeza do meu corcel Xanto (nome carinhoso que atribuo ao carro por estes dias, em homenagem aos míticos corcéis de Aquiles, o outro dava pelo nome de Balio, filhos do deus do vento, Zéfiro, e da harpia Podarga, que, reza a lenda, tinham o dom da fala e chegaram a avisar Aquiles sobre a sua morte iminente — o meu Xanto também fala, mas é conversa mediada pelo Carplay e atende por Siri).
Mondim de Basto, regressemos então à vila, numa manhã, que de tão luminosa quase parecia suspeita. Há lugares que se entregam depressa à evidência: uma praça, um jardim, uma esplanada, uma fonte antiga, flores bem cuidadas e bancos que aguardam, resignados, a próxima conversa. Mas há outros, ou talvez sejam os mesmos, quando o olhar se demora, que escondem uma espécie de pulsação subterrânea, uma memória feita de nomes, partidas, silêncios e água.
Hoje percorri a Praça, ou Largo, 9 de Abril, como lhe quiserem chamar, até porque por aqui responde às duas designações. Conhecem? É uma questão de retórica, afinal, só seria possível se já se tivessem perdido por estes lados, em terras de Basto.
Não é uma praça monumental ou que se imponha por escala. Nem procura, tampouco, impressionar quem chega. Pelo contrário: parece guardar-se. Há árvores largas, roseiras, canteiros de flores em tons que vão do branco ao violeta e ao vermelho, casas de granito e fachadas antigas que sobrevivem, discretas, à inexorável passagem do tempo. Há também bancos pintados de branco, como se tivessem sido deixados ali para que alguém se sentasse não apenas a descansar, mas a recordar.
Num deles lê-se: “Onde a terra toca o céu.” Noutro: “A força das águas selvagens.”
Não sei quem escolheu as frases, mas parecem-me apropriadas a este lugar, indo muito além deles, para o parque natural do Alvão, com as suas famosas Fisgas de Ermelo. Mondim vive, assim, entre essa promessa vertical das montanhas e a presença insistente da água. A paisagem nunca está inteiramente quieta: mesmo quando a praça repousa sob o calor e os cafés parecem suspensos numa lentidão de agosto, há qualquer coisa que corre por baixo — talvez um rio, a memória dos que atravessaram a vila ou apenas o tempo.
A praça nem sempre foi assim. Antes de receber o seu nome atual, era a Praça Municipal: espaço de poder local, próximo dos antigos Paços do Concelho, do pelourinho manuelino e da Capela de Santa Quitéria. Depois, nas primeiras décadas do século passado, foi sendo transformada, ajardinada, disciplinada pela geometria dos caminhos e das árvores, até que o monumento aos mortos da Grande Guerra lhe deu um novo propósito.
É impossível olhar para esse monumento, severo, de pedra escurecida, cercado pelas flores vermelhas, sem pensar no que significa trazer a guerra para o centro de uma vila. Não a guerra abstrata dos livros, dos mapas e dos números, mas a outra: a que fez partir homens das aldeias, arrancou filhos às famílias e devolveu, quando assim aconteceu, pessoas que já não pertenciam inteiramente ao lugar de onde tinham saído.
O nome da praça, 9 de abril (de 1918), recorda a Batalha de La Lys. Há nessa escolha algo de deliberado: a vila não quis que a memória fosse remetida para um canto ou para uma data esquecida num calendário oficial. Fê-la quotidiana. Quem vai ao café, quem estaciona, quem passa a caminho de casa, quem se senta à sombra, atravessa inevitavelmente essa recordação.
Pensei nisso enquanto via os resquícios das festas de em honra de São Tiago e as luzes suspensas sobre as ruas. As festas locais têm esta estranha capacidade de reunir tempos contraditórios: a infância dos que regressam, a vida quotidiana dos que nunca partiram, os emigrantes que voltam por algumas semanas, os mortos que continuam inscritos na pedra, e os jovens que assinam um banco com a urgência de quem ainda não sabe que também um dia terá saudades.
Num banco lia-se, em letras largas e coloridas, “Literatura”. Talvez não haja palavra mais adequada para uma praça assim. Porque a literatura começa muitas vezes nesse gesto simples de parar diante de algo aparentemente banal — uma árvore antiga, uma fonte, uma fachada com uma janela amarela, um campo de flores, um café acabado de servir — e perceber que aquilo contém mais vidas do que as que se veem.
Mais abaixo, a água oferece outro cenário. Um passadiço conduz a pequenos coretos sobre um espelho verde, quase imóvel, onde a vegetação se acumula e o reflexo das árvores parece hesitar entre a superfície e o fundo. O lugar tem uma beleza que não é inteiramente pacífica. Há uma espécie de fronteira ali: de um lado, a vila, organizada, nomeada, iluminada; do outro, o rumor mais antigo da água e das árvores.
Talvez o segredo da beleza da vila esteja nesta tensão local, entre o urbano e a natureza, como que a lembrar-nos de que nenhuma praça, por mais bem desenhada que esteja, domina inteiramente aquilo que a rodeia.
Pelo caminho, bebi um café, acompanhado por uma garrafa de água gaseificada com limão, e pensei que estes pequenos rituais são, também eles, uma forma humilde de pertença a um lugar. É certo, eu sei, um café numa esplanada não resolve a História, não restitui os ausentes, não explica as partidas nem interrompe o avanço dos anos. Mas permite-nos, por alguns minutos, habitar o lugar. E habitar um lugar é aceitar que ele nos observe de volta também.
Mondim não se revelou todo hoje. As vilas raramente o fazem. Limitou-se a deixar sinais: o granito, as flores, as frases escritas nos bancos, a sede de um clube local, fundado em 1924, i.e., o Mondinense, o monumento de guerra, as luzes das festas e a água parada sob os pavilhões azuis.
Mas o dia ainda me reservava um último mistério. Não sei se vos tinha dito, mas há uns tempos atrás perdi as chaves de casa... uma verdadeira tragédia, porque não tinha por perto nenhum dos fiéis depositários das cópias delas. Por sorte, uma alma caridosa, lá se deu ao trabalho de, ainda que estando longe, vir de propósito trazer-me a sua cópia. Revolvi tudo e não as encontrei. Adivinhem lá onde estavam? No Xanto... e foi preciso vir para terras de Basto para, em vésperas de eclipse solar, elas aparecerem, qual segredo desvendado. Ele há mistérios, não há?!
Trouxe comigo todos esses sinais. Talvez amanhã já pareçam apenas fotografias ou memórias. Hoje, porém, ainda têm voz, abrindo caminho para um resto de dia promissor.

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