A elegância do despojamento

Há encontros musicais que marcam época e outros que parecem suspender o tempo. O registo televisivo de 1967, no especial da NBC, onde Frank Sinatra e António Carlos Jobim partilham o palco, pertence sem dúvida à segunda categoria.

Sentados lado a lado, com a guitarra discreta de Jobim e a orquestração requintada concebida por Claus Ogerman, os dois mestres constroem uma harmonia rara entre o balanço do cancioneiro norte-americano e a sofisticação melódica da bossa nova.

O célebre medley que interpretam — reunindo temas como "Quiet Nights of Quiet Stars" (Corcovado), "Change Partners", "I Concentrate on You" e a incontornável "The Girl from Ipanema" — revela uma generosidade artística exemplar. Sinatra, habituado à projeção pujante das grandes big bands, recolhe a voz para um quase sussurro, adaptando-se à contenção intimista do maestro brasileiro. Jobim, por sua vez, empresta a suavidade do seu fraseado e o pulsar sincopado do violão, provando que a verdadeira mestria reside no despojamento.

Num tempo em que o excesso e a velocidade dominam tantas produções, revisitar esta parceria gravada em 1967 é um lembrete revigorante sobre a elegância, a contenção e o poder intemporal da boa música.


A boa música é como a boa literatura, a pintura e a escultura: perdura para sempre, muito para além do tempo físico dos artistas. E ainda bem. 

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