Um Amuleto de Roma, Mondim (Ermelo) e um Futuro de Néon
Há adereços que carregam consigo uma história.
Esta pulseira é um deles, definitivamente. Encontrou-me em Roma, num dia de final de maio, particularmente quente para a época, ali perto do Panteão — ou terá sido do Fórum? Bem, não interessa muito para o caso. Voltando à pulseira na fotografia acima: não sei se fui eu que a escolhi ou se, como sucede com os objetos que acabam por permanecer connosco, foi ela que se deixou encontrar por mim. Desde então, de quando em vez, trago ao pulso mais do que um pequeno amuleto. Trago a lembrança de uma viagem geográfica, certamente, mas, sobretudo, pessoal, e talvez uma das mais importantes e definidoras da minha vida, em termos interiores.
Já aqui vos falei dessa espécie de epopeia pessoal. Não a repetirei agora, este meu, e vosso, assim acredito, humilde diário guarda-a algures, para quem tiver a paciência ou a curiosidade de voltar atrás para a revisitar. Para o efeito que aqui interessa, basta dizer-vos que há viagens que não terminam no regresso. Continuam, discretamente, no modo como olhamos para nós próprios, nas perguntas que permanecem e, por vezes, em objetos simples que nos recordam que fomos, em determinado lugar e instante, outra versão de nós — se melhor ou se pior, só o tempo e as nossas ações o dirão.
Entretanto, e como terminei ontem dizendo, a estrada lá me trouxe até terras de Basto, mais concretamente Mondim, Ermelo. E há aqui, confesso, uma diferença quase cómica entre a Roma das ruínas imperiais e a sombra tranquila de uma casa em terras de Basto. De um lado, o Panteão e o Fórum, vindos diretamente da Antiguidade Clássica, com cerca de dois mil anos. Do outro, este pátio onde as plantas crescem sem qualquer pretensão de entrar na, e para a, História. Mas talvez sejam, afinal, lugares menos distantes do que parecem. Ambos falam de tempo: um, do que sobreviveu à passagem de muitos séculos e o outro, do que persiste no cuidado diário, no fresco de um pátio, no meio das serras, numa árvore que continua a dar sombra, numa videira que insiste em crescer e subir.
Hoje, por acaso — ou, quem sabe, por aquela espécie de acaso que os algoritmos musicais nos querem fazer crer que dominam — o streaming decidiu (re)oferecer-me, durante a viagem, "21st Century Boy", dos Sigue Sigue Sputnik (conhecem?!).
Era adolescente quando a ouvi pela primeira vez. Naquele tempo, a letra, a capa, o som eletrónico, abrupto e quase industrial, bem como o universo visual que a rodeava, pareciam-me vindos de um futuro simultaneamente desejável e inquietante: um mundo de néon, televisão, máquinas, marcas, consumo, corpos transformados em imagens e velocidade elevada a modo de vida. Não era bem uma visão apocalíptica. Era, talvez, mais perturbador do que isso, uma celebração ruidosa de um futuro onde tudo poderia ser comprado, exibido e imediatamente substituído.
Agora, com o século XXI já bem adentrado, percebo que algumas dessas inquietações não perderam atualidade. A tecnologia tornou-se ainda mais íntima, a publicidade mais discreta e omnipresente, as imagens mais rápidas e o consumo mais ansioso. Mas aquela epifania excessiva, quase caricatural, de um futuro inteiramente feito de ecrãs, glamour sintético e ficção científica não se cumpriu por inteiro, pelo menos, por enquanto.
Não vivemos no mundo exato que os Sigue Sigue Sputnik encenavam no seu videoclip. Há, sem dúvida, violência, ruído, desigualdade, guerra e uma quantidade excessiva de pessoas a confundir velocidade com destino, já para não falar de algoritmos que nos conhecem, ou fingem conhecer, melhor do que nós próprios. Mas, em boa verdade, existe também este pátio, plantas que se inclinam para a luz, uma pulseira vinda de Roma, a cidade eterna, estradas que nos levam de uma memória a outra e, não menos importante, músicas antigas, perdidas nas brumas da nossa memória, que, por obra e graça do algoritmo, reaparecem no momento certo, para, por um lado, despertarem a nossa nostalgia e, por outro, serem objeto da nossa reflexão, a uma luz mais sóbria, quem sabe, fruto da nossa inexorável passagem pelo tempo.
Talvez seja essa a pequena vitória que poderemos ter sobre qualquer futuro demasiado programado: não negar o que é sombrio, nem o que é artificial, mas recusar que seja tudo. Encontrar, entre a urgência, o excesso e o desencanto, espaço para sentar, ouvir, recordar e olhar em redor. Afinal, nem todos os futuros cabem num ecrã, e ainda bem.
A pulseira continua no pulso. Roma, eterna, continua no seu lugar geográfico e, simultaneamente, nas recordações que trago dela em mim. Mondim, ou melhor, Ermelo, com o seu sossego no meio da natureza, está aqui, à vista, para contemplar e apreciar. E a música, bem... por alguns minutos, fez da estrada entre estes lugares uma só viagem.

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