Onde o Caminho Segue o Rio
Por aqui, existe sempre uma certeza: caminhadas diárias, seguindo o curso da estrada ou da própria floresta, apreciando com serenidade e no tempo certo, sempre tão importante nas coisas boas da vida, o que a natureza circundante tem para nos oferecer. E hoje, apesar de recém-chegado, não foi exceção.
Bastou sair de casa e o caminho impôs-se, quase por hábito antigo, como se os pés já conhecessem o trajeto antes de eu próprio o decidir. Passei junto ao velho letreiro de madeira que anuncia o “Parque”, cuja palavra o tempo fez desaparecer do letreiro, de merendas do Conselho Directivo de Ermelo, com as letras gastas pelo tempo e pelas chuvas de tantas estações, e o bar, fiel ao seu lugar, com a promessa, nem sempre cumprida, de estar aberto, à mão de quem precisar de uma pausa ou de dois ou três dedos de conversa.
Há qualquer coisa de reconfortante nestes sinais rústicos, meio artesanais, meio improvisados, que resistem estoicamente ao lado das placas de betão e dos fios elétricos. Contam uma história de comunidade que continua viva: alguém pintou aquelas letras, alguém pregou aquelas tábuas que constituem o letreiro, alguém decidiu, num qualquer momento, que era preciso indicar o caminho para quem por ali passasse. E passam-se anos, e o letreiro mantém-se, testemunha discreta de tantas idas e vindas, e vidas também.
Mais adiante, a estrada estreita-se, ganha sombra e verde. Uma vinha antiga estende-se por cima do caminho, quase a formar um túnel natural, com a luz a filtrar-se por entre as folhas em pequenos fragmentos dourados. À esquerda, um muro de pedra coberto de musgo guarda uma escadaria antiga e um portão de ferro que já viu décadas de mãos a abri-lo e a fechá-lo. É uma daquelas imagens que parecem paradas no tempo, e talvez estejam mesmo, ou pelo menos resistam melhor do que a maioria das coisas à pressa que teimamos em impor ao nosso calendário.
E depois, sem que se veja logo, ouve-se o rio Olo, ali perto, murmurando por entre as pedras, invisível na curva do caminho, mas absolutamente presente nos sons circundantes. É uma daquelas presenças que não precisam de imagem para se fazerem sentir, basta o rumor constante da água a correr, um som quase líquido de fundo que acompanha os passos e que, sem se dar por isso, acaba por regular a própria respiração de quem caminha. Não sei se é o rio que segue o caminho ou o caminho que segue o rio; talvez, aqui, se façam as duas coisas ao mesmo tempo.
Caminhar por aqui é isto: deixar que a paisagem, visual e sonora, dite o ritmo, sem pressa de chegar a lado algum em particular. O objetivo não é o destino, é o próprio movimento, a atenção às pedras, às sombras, ao som das folhas das árvores e ao rumor discreto do rio Olo, ao letreiro que continua a apontar caminhos que já poucos precisam de seguir.
Talvez seja essa a maior aprendizagem destas caminhadas: a serenidade não se impõe, conquista-se devagar, um passo a seguir ao outro, com os ouvidos postos no rio e os olhos naquilo que a natureza, e quem por ali viveu antes de nós, decidiu deixar à vista, como uma espécie de pontos cardinais para orientar os caminhantes.

Comentários
Enviar um comentário