Entre o Que Se Vê e o Que Se Escolhe Ver
Há fotografias que parecem simples, mas que, na verdade, escondem uma arquitetura complexa de olhares e ausências. Esta, tirada numa praia qualquer, em dia de férias, é uma delas.
À primeira vista, vemos crianças a brincar entre pequenas poças de maré, rochas cobertas de um verde intenso das algas que a elas se agarram, o mar ao fundo, uma faixa de céu que ocupa mais de metade da imagem. Tudo parece natural, espontâneo, como devem ser este tipo de fotografias. Mas basta olhar com mais atenção para perceber que esta imagem é, também, um exercício de posição: quem fotografa está de pé, a uma certa distância, num ponto que lhe permite ver sem ser visto pelas crianças, que estão demasiado entretidas na água para reparar na câmara do telemóvel a elas apontada.
Este é, talvez, o primeiro paradoxo. A fotografia captura um momento de brincadeira livre, mas fá-lo a partir de um lugar de observação que as crianças não escolheram partilhar. Elas não posam para a fotografia. Não sabem que são observadas. E, no entanto, é essa ausência de consciência do olhar que torna a imagem verdadeira ou, pelo menos, que a torna verosímil como retrato de um momento não fabricado.
Reparo também na composição: o céu ocupa um espaço desproporcionado, quase opressivo na sua vastidão azul, empurrando toda a ação humana para uma faixa estreita, quase marginal, na parte inferior da imagem. É como se a fotografia dissesse, sem palavras, que a grandeza do mundo natural relativiza a pequenez das nossas figuras, ali, entre rochas e água, meras formas coloridas que se movem, sem hierarquia clara entre quem brinca mais perto ou mais longe da câmara que lhes está apontada.
E depois há o que não está na fotografia: quem tirou a fotografia. Esse "eu" que enquadra, que decide o que entra e o que fica de fora, que escolhe o momento exato do gesto (i.e., a criança que salta, a outra que se agacha, a que caminha na água) permanece invisível, mas presente em cada escolha de enquadramento. A fotografia é, também, um retrato indireto de quem a fez: da sua posição, do seu olhar, da distância que escolheu manter.
Nem sempre conseguimos parar e reparar nas pequenas coisas que nos rodeiam, mas hoje, em dia de férias, não foi assim, e ainda bem, porque consegui compreender algo essencial, sobretudo, para quem gosta de desconstruir o mundo à sua volta: todo o registo do real é já uma interpretação, um recorte, uma escolha entre o que mostramos e o que deixamos por dizer. Vemos crianças a brincar no mar. Mas vemos, também, a forma como decidimos vê-las, e isso, meus car@s, mais do que a cena em si, talvez seja o verdadeiro tema da fotografia.
Fica a pergunta, sem pretensão de qualquer resposta, apenas para minha e, se assim quiserem, vossa reflexão: quando olhamos para uma imagem, o que estamos realmente a ver — o momento ou a nossa própria posição perante ele?

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