Regresso ao trabalho...
Pois é, as férias acabaram, amanhã já é dia de trabalho. E Lisboa, a avaliar pelo que dizem as previsões meteorológicas para esta semana, parece querer receber-me com uma chuva cinzenta e persistente, como se a cidade também precisasse de assinalar o fim de qualquer coisa boa com um gesto dramático. Se fosse um grego homérico, que não sou, arriscaria dizer que os Deuses no Olimpo se compadecem de mim por este regresso à realidade.
Não sei se Zeus anda distraído com outras tempestades para gerir, mas esta, sobre Lisboa, tem todo o ar de ter sido encomendada especificamente para marcar a transição do sol das terras de Basto para o cinzento da cidade. Nem um raio, nem um trovão mais dramático, só chuva persistente e um céu carregado, competente a fazer o trabalho de qualquer coro trágico: preparar o espectador para o que vem a seguir.
A verdade é que os deuses gregos, ao contrário de mim, nunca tiveram de recomeçar nada às segundas-feiras. Viviam de festins eternos, disputas vaidosas e intrigas sem consequências reais — o mais parecido que tinham a uma "vida profissional" era gerir mortais teimosos que insistiam em desafiar os seus decretos. Nós, mortais do século XXI, temos calendários, reuniões e caixas de correio que se acumulam silenciosamente durante duas semanas, à espera do primeiro dia útil para explodirem todas ao mesmo tempo.
Talvez não haja compaixão olímpica nenhuma nesta chuva, só mesmo meteorologia, sem qualquer intenção narrativa. Mas convenhamos que, depois de semanas de sol, caminhadas e despertadores desligados, há qualquer coisa, arrisco, de poético em regressar a casa precisamente no dia em que o céu decide também "voltar ao trabalho", como se a própria atmosfera tivesse ficado de férias e agora se sentisse na obrigação de recuperar o tempo perdido.
Amanhã, então, começa tudo de novo, sem deuses, sem Olimpo, só com um guarda-chuva e a esperança de que a produtividade regresse com menos drama do que esta chuva.


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