Recuerdos…

É verdade, já o diz a sabedoria popular, "o que é bom não dura para sempre" e, fazendo justiça a esta máxima, tenho de reconhecer que já vejo no horizonte o fim deste tempo de paragem e descanso, que só umas boas, e aqui entre nós, merecidas férias nos podem dar.

Há verões, em férias, que se resumem a um lugar e depois existem aqueles que se espalham por vários lugares, numa verdadeira Odisseia, ou Ulisseia, como se a paisagem também precisasse de férias da rotina e (re)abraçar outros mundos. Definitivamente, este verão, e estas férias, fazem parte do segundo grupo: começou junto ao mar, em Cascais, passou pelas praias, muralhas e vinhas do histórico concelho de Torres Vedras, e fechou-se, como sempre fecha o melhor das férias nos verões de há muitos anos a esta parte, em terras de Basto, entre serras, rios e gente conhecida e muito querida.

Regresso a Lisboa já esta sexta-feira, e a segunda-feira seguinte devolve-me, sem grandes contemplações, ao trabalho e à sua rotina de sempre. Mas não me apetece fechar este parêntese de férias com azedume, porque a verdade é que foram, de fio a pavio, dias bons, e disso, sim, vale a pena deixar registo.

Houve tempo para tudo o que normalmente escasseia: para a família e para os amigos, para as conversas que se arrastam pela noite sem pressa de acabar, para o silêncio bom de estar apenas com quem gostamos de estar. Houve tempo para ler devagar, sem a culpa de estar a "perder tempo", e para descansar a sério, esse descanso que não se mede em horas de sono mas em quilos que se tiram dos ombros, como se deixássemos de carregar, finalmente, um peso morto que não é nosso, nunca foi. E houve também, e isto talvez surpreenda quem só associa férias a ócio, uma semana inteira dedicada ao trabalho académico, cumprindo religiosamente o cronograma que tinha traçado — porque descansar, pelo menos para mim, inclui também a satisfação de ver um plano a avançar como previsto, num trabalho a que nos propusemos concretizar, evitando, assim, sobrecarregar o futuro próximo com o que podia ter sido feito antes com muito menos sacrifício.

Sobrou espaço, claro, para o cinema e as séries que fui (re)vendo, esse hábito que nunca abrandou por estar em férias, só mudou de escala e de sofá. E houve, ainda, tempo para as caminhadas ao final do dia pelas serras e estradas do Alvão, àquela luz baixa de um final de tarde de verão, com aquele tom e cor tão característicos desta zona do país a certas horas, respirando o ar da montanha que, de tão puro e leve, nos faz esquecer os ares de Lisboa — e os passos? Aqui seguem ao seu ritmo, sem pressa nenhuma porque não há destino a cumprir, só o caminho e, por vezes, boa companhia.

No fundo, têm sido dias feitos da simplicidade que tantas vezes esquecemos durante o ano: comer bem sem grandes cerimónias, dormir sem despertador, reajustar o ritmo interior e biológico a um relógio que não é o do trabalho nem sequer o dos ecrãs. E se há uma coisa que estas férias me devolveram, foi precisamente essa sensação rara de estar bem comigo próprio, com os que me rodeiam, e, já agora, com o mundo lá fora, que continuou a girar sem mim e sem grande urgência de que eu voltasse mais depressa.

Vou ali continuar estas férias e já volto... até já!

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