Desforra

Há estórias que, como acontece com as boas anedotas, só ganham verdadeiro sentido quando as recontamos com as nossas próprias palavras, e esta é uma delas. Corria o ano de 1981 quando um jovem norte-americano chamado Paul Devlin, ainda a terminar o secundário, fez o que qualquer estudante ambicioso faz nessa idade: candidatou-se a um conjunto de boas universidades, Harvard incluída. E, como manda a estatística implacável que, já nessa época, regia estas instituições (hoje Harvard aceita apenas cerca de 3,6% dos candidatos, e a proporção, ao que dizem, não era muito mais simpática há quarenta anos), recebeu a carta que ninguém quer receber: ou seja, um "não" educado, formal, e definitivo.

Até aqui, nada que distinga Devlin dos milhares de jovens rejeitados todos os anos por Harvard e por outras instituições do género. O que o torna memorável é o que fez a seguir. Ao reler a carta de rejeição, notou um deslize gramatical no texto, um erro na formulação que a mais prestigiada universidade do mundo académico tinha usado para lhe dizer que não. E decidiu, com uma mistura de indignação e sentido de humor caraterística da juventude, que aquilo não podia ficar sem resposta.

A carta que escreveu para responder a Harvard ficou para a posteridade. Nela, assumiu o mesmo tom burocrático, seco e impessoal com que as universidades costumam comunicar as suas decisões, e usou-o para anunciar a Harvard, e a todas as outras instituições que também o tinham recusado, que, lamentavelmente, não estava em condições de aceitar tantas rejeições ao mesmo tempo. Explicava, com aparente rigor administrativo, que o número de recusas que conseguia absorver num só ano era necessariamente limitado, e que, por isso, se via obrigado a rejeitar, ele próprio, as rejeições de várias instituições que, de outro modo, seriam perfeitamente qualificadas para o recusar.

Mas não se ficou por aí, segundo o relato que sobreviveu até à data, Devlin garantia ter avaliado cuidadosamente cada rejeição recebida, considerando critérios como a dimensão da instituição, o rácio entre alunos e professores, a localização geográfica, o prestígio, o custo e até o ambiente social que cada universidade lhe teria oferecido caso o tivesse aceitado. No fecho, ainda encontrou espaço para agradecer a Harvard o interesse demonstrado ao rejeitá-lo, desejando-lhe sinceramente um bom ano académico e prometendo, com ironia refinada, encontrar-se com todos no campus no outono seguinte.

A sua mãe, orgulhosa do gesto e com bom instinto para reconhecer uma boa estória quando ela lhe caía nas mãos, decidiu enviar a carta ao The New York Times, que a publicou em maio desse mesmo ano. E a estória, longe de se apagar com o tempo, continuou a crescer: mais de quarenta anos depois, em 2022, o ator britânico Himesh Patel leu-a em voz alta, com todo o dramatismo que o texto merece, num evento em Londres: prova de que certos gestos de humor bem escrito não se limitam a divertir os contemporâneos, tornam-se pequenos clássicos que atravessam gerações.

O mais delicioso, porém, é o que aconteceu depois. Devlin não ficou pela proeza adolescente de responder com estilo a uma instituição de elite. Seguiu carreira como produtor e realizador de documentários, ganhou nove prémios Emmy e chegou a ser nomeado para um Independent Spirit Award, um percurso que dificilmente poderia ter sido mais brilhante se tivesse entrado em Harvard ou em qualquer outra das instituições de ensino superior que o recusaram naquele ano.

E existe qualquer coisa de particularmente saudável nesta estória, e ela não se esgota no prazer simples de ver um adolescente, à data, a fazer render uma boa piada. Tem sobretudo a ver com a maneira como decidimos lidar com os "nãos" que a vida nos vai distribuindo generosamente, venham eles de uma universidade, de um emprego, de uma editora ou, já agora, de alguém que nos interessava mais do que devia. A tendência natural é encolhermo-nos perante a recusa, aceitá-la como sentença inapelável e seguir cabisbaixos para a próxima tentativa. Devlin fez precisamente o contrário: pegou na fórmula fria que o tinha ferido, devolveu-a com a mesma seriedade formal, e transformou aquilo que poderia ter sido uma humilhação silenciosa numa estória que ainda hoje se conta e nos diverte.

Não sei se este episódio serve de manual universal para enfrentar as rejeições da vida, até porque nem todos temos o timing cómico, ou a distância emocional necessária, para responder com sarcasmo epistolar a quem nos diz "não". Mas fica pelo menos uma lição pequena e perfeitamente aplicável ao nosso dia a dia: a rejeição não tem obrigatoriamente de ser recebida em silêncio digno e resignado. Por vezes, o melhor remédio é rir-lhe na cara, com classe, e seguir sem olhar para trás, o que, no caso de Devlin, se revelou um caminho bem mais interessante do que qualquer sala de aula em Cambridge, Massachusetts.

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