A Memória do Mar
Existem objetos que deixam de ser meros objetos quando acumulam tempo, uso e histórias. Esta velha peça de equipamento é um desses casos. À primeira vista, pode parecer apenas um cilindro gasto, coberto de incrustações e marcas de sal. Mas basta olhar com atenção para perceber que transporta consigo uma vida inteira de mar. As conchas, os vestígios de organismos marinhos e a superfície profundamente transformada pela água contam uma história que não cabe num manual técnico. O mar não devolve as coisas como as recebeu. Trabalha-as devagar, sem pressa e sem intenção de as preservar bonitas segundo os nossos critérios de beleza. Vai cobrindo, corroendo, acrescentando camadas, fazendo de cada objeto uma pequena paisagem submarina. Há qualquer coisa de quase arqueológico nesta peça. Não por ter sido encontrada num naufrágio antigo ou por pertencer a uma qualquer civilização perdida — o que não é o caso —, mas porque guarda, no seu corpo, a passagem do tempo e a memória de uma atividade. Foi...
