Das caminhadas por aqui

Há lugares que, vistos à distância, parecem apenas um ponto no meio da serra. Um conjunto de casas entre o verde, uma estrada desenhada na encosta, o princípio, ou o fim, de qualquer coisa. Mas quem parte dali todos os dias sabe que uma paisagem nunca é só aquilo que cabe numa fotografia.

Estas férias têm tido também esse ritmo: uma caminhada por dia, em média sete quilómetros, cerca de noventa e três já percorridos até agora. Não é uma meta olímpica, nem há medalhas no fim do caminho, felizmente. Há apenas o gesto simples de sair, pôr um pé diante do outro e deixar que o corpo, pouco a pouco, se liberte da urgência que trazemos connosco o resto do ano.

Caminhar por estas estradas e caminhos é, antes de mais, reaprender a ouvir. O cantar dos pássaros, o vento a mexer nos pinheiros, os sons quase impercetíveis de uma serra que não precisa de anunciar a sua presença. Há uma paz exterior — a da paisagem, da luz, da distância — que vai encontrando caminho para dentro de nós, como se o silêncio tivesse também a sua própria forma de conversa.

Nesta imagem, o ponto de partida aparece ao longe. É curioso como, depois de alguns quilómetros, a casa, a aldeia e o lugar de onde saímos se tornam mais pequenos aos nossos olhos, sem, por isso, se tornarem menos importantes. Pelo contrário: é quando os vemos de longe que percebemos melhor aquilo que nos liga a eles.

E depois há a certeza, antiga mas sempre atual, de que o caminho se faz caminhando. Não apenas o trilho de terra, o asfalto irregular ou as curvas que sobem e descem pela serra. Também o resto. As pausas que precisamos de fazer. As rotinas que convém abandonar por uns dias. A tranquilidade que não se encontra por acaso, mas que se vai construindo passo a passo.

Por agora, seguem-se os quilómetros, os pássaros, a serra e a boa desculpa de que ainda há caminhos por percorrer.

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