Matéria-Prima

Mondim, no sopé do Monte Farinha, onde o Santuário de Nossa Senhora da Graça, assim reza a História, guarda a vila desde o século XVI, parece uma localidade onde a transformação da intervenção humana não acompanha a velocidade a que este mundo globalizado nos habituou, sobretudo desde o último terço do século passado. E a barbearia do Armando, ponto de visita sempre que estou por cá, é um dos melhores exemplos de como o comércio local não se deixa intimidar nem arrastar pelas correrias loucas de uma economia de mercado.

Basta entrar para perceber que ali o tempo obedece a outras leis. As estantes de madeira, entulhadas de frascos, rádios antigos e um calendário pendurado como se fosse ainda o item mais moderno da loja, não pedem desculpa por não terem mudado. A cadeira giratória, de metal polido e couro gasto, continua a mesma há décadas, e o espelho, grande, emoldurado e testemunha silenciosa de milhares de rostos, devolve sempre a mesma pergunta a quem se senta: quem é, de facto, esta pessoa que aqui está?

Talvez seja essa a função mais discreta e mais honesta de uma barbearia como esta: colocar-nos, literalmente, de frente para nós próprios. Não há filtros, não há ângulos escolhidos a dedo, não há luz composta para disfarçar o que já não é o que foi. Há apenas um espelho, uma cadeira e o tempo que passou desde a última vez que ali nos sentámos.

Olho para o espelho, vejo-me e reparo que a mudança exterior, tantas vezes tratada como algo superficial, tem uma forma peculiar de nos obrigar a confrontações mais profundas. Cortar cabelo, ou vê-lo desaparecer sob a lâmina, não é um gesto neutro. É um pequeno ensaio de aceitação. Aceitar o rosto que fica quando se retiram certas camadas, certos hábitos visuais a que nos afeiçoámos, é também aceitar a versão de nós que, por vezes, tentamos evitar ver com demasiada nitidez.

Há algo de simbolicamente honesto nesta passagem entre o "antes" e o "depois". No primeiro instante, a luz suave do exterior, o cabelo ainda a resistir, uma expressão mais protegida. No segundo, luz direta, quase sem sombras onde esconder-se, e um rosto que já não recusa mostrar-se por inteiro. Não é apenas um corte de cabelo, é uma pequena cerimónia de despojamento, uma redução ao essencial, quase um convite involuntário à humildade.

Talvez seja por isso que continuo a voltar à barbearia do Armando sempre que estou por aqui. Não é apenas hábito, nem sequer nostalgia por um espaço que resiste à pressa do mundo. É também, e talvez na sua essência, uma forma de aceitar o confronto: sentar-me, olhar para o espelho e reconhecer que as mudanças por fora — o cabelo que rareia e as marcas que se acentuam no rosto, fruto da tal inexorável passagem pelo tempo — são apenas o reflexo visível de mudanças interiores que, essas sim, exigem verdadeiro trabalho de aceitação.

Aceitar-se na plenitude do que se é, no verso e no inverso de quem somos, não é tarefa fácil e que se cumpra de vez. É antes um exercício repetido, quase ritual, como voltar à mesma barbearia, sentar-me na mesma cadeira e deixar que outra pessoa, com paciência e experiência, nos devolva, com uma tesoura ou uma máquina, uma versão mais simples e mais honesta de nós próprios.

O Armando, mesmo sem o saber, presta este serviço a cada cliente que se sente na sua cadeira: um pequeno convite a olhar de frente para quem somos, sem grandes cerimónias, sem grandes discursos. Só um espelho, um corte de cabelo e o tempo, sempre ele, a insistir em passar por nós, ou vice-versa. O resultado? No meu caso, em termos interiores não o conseguiria partilhar, mas deixo-vos o resultado exterior da arte do Armando, sem filtros, aqui, comigo a ser matéria prima sujeita a transformação operada pelo artista.

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