Desliguei-me
Decidi, há uns tempos, sair do Facebook. Depois saí também do Instagram. No fundo, a decisão foi de ir diminuindo a minha presença nas plataformas de sociabilidade online, as chamadas redes sociais, tão em voga nas sociedades coetâneas. Não foi um gesto anunciado nem pensado com grande solenidade. Foi antes uma decisão que foi amadurecendo, devagar, até que um dia simplesmente aconteceu.
Em nome próprio, estudo estas plataformas há anos. Tenho uma dissertação escrita e defendida sobre o tema. Tenho também artigos publicados sobre o ciberespaço enquanto novo domínio operacional geopolítico e geoeconómico, e um novo artigo no prelo sobre as redes sociais. E há, claro, a tese de doutoramento, em curso, que continua a aprofundar estas mesmas questões, entre outras: o ciberespaço, a globalização, e a forma como um ecrã nos aproxima e, ao mesmo tempo, nos afasta.
Ao longo destes anos, questionei-me sempre sobre o que ganhamos com estas plataformas, e o que perdemos também. Porque ganhamos, sem dúvida. Redes de apoio, proximidade com quem está longe, causas que ganham voz que de outro modo não teriam. Mas perdemos também, e por vezes mais do que gostaríamos de admitir: tempo que desaparece sem se saber para onde foi, comparações silenciosas que nos deixam mais vazios do que estávamos, uma exposição constante que cansa sem que percebamos bem porquê ou para quê.
A certa altura, estudar estas plataformas deixou de ser suficiente. Compreendi que já não bastava analisar o fenómeno como se estivesse do lado de fora dele. Afinal, enquanto utilizador, estava, eu próprio, a viver exatamente aquilo que descrevi. E foi aí que decidi experimentar o outro lado da questão: não estar nelas.
Não sei se é a decisão certa para todos. Sei que é a mais acertada para mim, pelo menos, por agora. E talvez seja também, de alguma forma estranha, a continuação mais honesta do meu próprio trabalho académico: estudar estas plataformas de sociabilidade não apenas na perspetiva científica e social, mas com a experiência de quem decidiu, por fim, desligar-se delas.

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