A Liberdade do Cesco
O Cesco também aprovou estas férias. E, ao contrário de outras visitas a Ermelo, em que preferia a prudência de se refugiar dentro de casa, desta vez decidiu que a vida no campo merecia ser experimentada com mais curiosidade.
Saiu, observou, conviveu e encontrou o seu lugar no grande pátio, entre os vasos, as cadeiras, os recantos de sombra e a pequena agitação doméstica de uma casa que, durante estes dias, se encheu de gente, de conversas e de portas abertas. Para um felino habituado à cidade, esta liberdade tem certamente outro sabor: há mais espaço, mais cheiros, mais sons, mais coisas a vigiar e um banco ao ar livre que parece ter sido reservado exclusivamente para ele.
Dizem que os gatos, embora façam questão de parecer inteiramente independentes, acabam por alinhar a sua disposição com a de quem vive com eles. Não sei se será ciência, observação ou apenas uma teoria simpática para donos de gatos, mas o Cesco parece ter aderido ao espírito geral destas férias: menos pressa, mais curiosidade e a tranquilidade de quem não tem agenda para cumprir.
Amanhã, por esta hora, estaremos de regresso a Lisboa. A casa voltará ao seu silêncio habitual, as malas terão desaparecido do quarto e, pouco depois, recomeçarão os horários, os ecrãs, o trabalho e aquela aceleração que julgamos inevitável durante o resto do ano.
Mas estas semanas deixaram qualquer coisa. Ficaram as refeições sem cerimónia, o descanso sem despertador, os dias passados entre família e amigos, os livros lidos sem olhar para o relógio, as caminhadas, as conversas prolongadas e esta sensação simples, mas rara, de que é possível acertar o passo com o nosso próprio ritmo.
Talvez o Cesco não saiba que amanhã regressa a Lisboa. Ou talvez saiba e, fiel à sua condição felina, já tenha decidido não dramatizar. Afinal, as férias acabam, mas a boa vida, quando se aprende alguma coisa com ela, não tem de ficar inteiramente para trás.

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