Somos as memórias que carregamos
Hoje deparei-me com esta notícia, num dos jornais de referência nacional, enquanto, qual zappeur com o ecrã do meu telemóvel, ia vendo as parangonas da atualidade (inter)nacional. Na imagem, Rumer Willis, encostada à testa do pai, Bruce Willis, num beijo captado em 2013. Esta imagem, hoje, toca-me de uma forma que na altura não imaginava possível, mas cujo significado começaria a descobrir a breve trecho, em 2014. Bruce Willis foi diagnosticado em 2022 com afasia e, em fevereiro de 2023, a família confirmou que o quadro tinha evoluído para demência frontotemporal — uma doença degenerativa distinta da doença de Alzheimer, mas que partilha com ela a mesma crueldade essencial: rouba a linguagem, o comportamento, a personalidade, até não restar quase nada da pessoa que conhecíamos. Recentemente, Rumer voltou a falar publicamente sobre o percurso do pai, descrevendo dias em que a realidade da doença se torna "demasiado difícil" de carregar.
Não conheci Bruce Willis, nem a sua filha ou qualquer outro elemento da família. Mas conheci alguém assim — alguém que, sem qualquer laço de sangue, foi para mim o que só se pode chamar de segundo pai. E por isso esta fotografia, e esta história, tocam-me particularmente.
Há doenças que matam de uma vez. A demência, nas suas diferentes formas, mata a prestações. Todos os dias se perde um pouco mais: um nome, uma piada recorrente, o timbre de voz que reconhecíamos ao telefone antes de a pessoa falar, a forma particular de olhar quando estava contente. O corpo continua ali, respira, por vezes até sorri — mas o sorriso já não responde ao mesmo estímulo de sempre. E quem acompanha de perto, como fui fazendo, vive um luto estranho, sem funeral, um luto que se repete a cada visita, porque a pessoa que se ama vai morrendo aos poucos enquanto continua, tecnicamente, viva. É isto que torna a demência tão diferente de outras perdas: não há um momento único de despedida. Existem centenas. E cada um deles exige que se comece o luto outra vez, sem nunca o terminar.
Existe uma ideia relacionada com o conceito de identidade pessoal que atravessa boa parte da filosofia e dos estudos literários coetâneos, que, no fundo, se resume do seguinte modo: aquilo que nos torna nós próprios, ao longo do tempo, não é a continuidade da matéria do corpo — as células mudam, o rosto envelhece, os órgãos falham e regeneram —, mas antes a continuidade da memória e da consciência que a interpreta. É a memória que costura o fio entre a criança que fomos e o adulto que somos. É ela que nos permite dizer "eu" com sentido, e não apenas apontar para um corpo que persiste no espaço físico. Quando essa memória se desfaz, o que fica é, de facto, um paradoxo cruel: o corpo permanece, reconhecível, com a mesma voz e as mesmas mãos, mas a pessoa, no sentido em que a entendíamos, já partiu. Não é biologicamente morta, mas já não é ela. É por isso que tantos filhos e cuidadores de pessoas com demência descrevem a experiência como "perder alguém que ainda está aqui". Não é uma metáfora vazia, é, talvez, a descrição mais precisa possível do que realmente acontece.
Talvez seja por isso que a fotografia de Rumer e Bruce Willis em 2013 tem tanta força: fixa um instante em que a memória ainda circulava nos dois sentidos, em que o beijo na testa era reconhecido por quem o recebia. Guardamos essas imagens, esses instantes, precisamente porque sabemos — ou pressentimos — que um dia serão tudo o que restará entre nós e quem se foi. Da minha experiência pessoal, retenho que talvez a única resposta digna à tragédia da demência seja continuar a ser memória para quem já não consegue sê-lo por si próprio. Visitar, falar, tocar, contar histórias antigas — não porque a pessoa vá "lembrar-se", mas porque, enquanto alguém guarda essa memória por ela, uma parte dela continua a existir, ainda que fora do seu próprio corpo. Talvez seja essa a única forma de honrar quem foi, uma vez que o corpo que fica já não é, de facto, quem conhecemos — mas nós, os que ficamos, podemos continuar a ser o lugar onde essa pessoa sobrevive.

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