Mesas, Despedidas e Romarias

Há poemas que não nos largam. Não sabemos bem porquê, ou talvez saibamos e prefiramos não o dizer em voz alta, com receio sabe-se lá de quê. No meu caso, hoje, foi este:

Na hora de pôr a mesa, éramos cinco:

o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs

e eu. Depois, a minha irmã mais velha

casou-se. Depois, a minha irmã mais nova

casou-se. Depois, o meu pai morreu. Hoje,

na hora de pôr a mesa, somos cinco,

menos a minha irmã mais velha que está

na casa dela, menos a minha irmã mais

nova que está na casa dela, menos o meu

pai, menos a minha mãe viúva. Cada um

deles é um lugar vazio nesta mesa onde

como sozinho. Mas irão estar sempre aqui.

na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.

Enquanto um de nós estiver vivo, seremos

sempre cinco.


 — José Luis Peixoto, in "A Criança em Ruínas".

A certa altura do dia, dei por mim a repetir mentalmente estes versos, como quem volta a uma mesa antiga para confirmar quantos lugares ainda lá cabem. O dia foi intenso, sobretudo na parte da manhã, marcado por despedidas e pela promessa de reencontros a breve trecho, desta feita com a perspectiva de retribuir a visita em terras do Uncle Sam já no próximo ano, se tudo correr bem. E talvez tenha sido isso que me trouxe estes versos à memória: a consciência de que, mesmo quando partimos, há sempre uma mesa que continua posta dentro de nós para aqueles que queremos bem, mas, pelas mais variadas vicissitudes, não temos perto de nós.

O poema fala de ausências: quem casa, quem morre, quem fica longe, quem come sozinho. Mas, ao mesmo tempo, insiste numa espécie de matemática afetiva que resiste ao tempo: “seremos sempre cinco”, é uma conta com resultado absoluto. Aqui entre nós, gosto desta ideia de contagem teimosa, em que sabemos logo à partida o resultado exato. Não se trata de negar o que mudou, mas antes de reconhecer que há vínculos que não se desfazem só porque a geografia, deste mundo ou do próximo, se complica ou porque o calendário decide avançar sem nos pedir opinião.

Hoje, ao pensar nas despedidas e nas viagens prometidas, tive a sensação de estar, também eu, a pôr uma mesa invisível. Há cadeiras que se afastam, outras que se aproximam, outras ainda que aguardam quem chegará daqui a meses ou anos, quem sabe. A mesa, porém, mantém-se. Alarga-se, encolhe, muda de lugar, mas continua lá, numa casa concreta, numa memória, numa fotografia ou num poema.

Fechado este primeiro ciclo de férias, começa amanhã o segundo, com a tradicional romaria às terras de Basto. Outro tipo de mesa, outra forma de presença. A romaria é, no fundo, uma grande mesa coletiva: estende-se pela estrada, pelas igrejas, pelos largos, pelas tascas, pelos encontros que se repetem ano após ano, mesmo quando já não estão todos, mesmo quando há ausências que, infelizmente, se tornam definitivas. Há sempre alguém que acende a vela, que leva a merenda, que sobe a encosta, que mantém viva a tradição como quem insiste em pôr a mesa mais uma vez.

Talvez para hoje seja essa a lição discreta do dia: as nossas vidas são feitas de mesas que se montam e desmontam, de romarias que nos levam e trazem, de lugares vazios que, apesar dos pesares, nunca ficam totalmente vazios. Cada despedida traz consigo um lugar a mais à mesa da memória. Assim como, cada promessa de reencontro é uma cadeira que reservamos no futuro, com o nome de quem esperamos voltar a ver.

No nosso caso, enquanto um de nós estiver vivo, nunca seremos menos de cinco. Porque, na hora de pôr a mesa — seja numa cozinha concreta, seja numa romaria em terras de Basto, seja em terras do Uncle Sam — estarão sempre sentados connosco todos aqueles que fizeram, e fazem, da nossa vida aquilo que ela é.

Hoje, o poema acompanhou-me de perto. Amanhã, a estrada fará o resto...

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