Mesas, Despedidas e Romarias
Na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. Depois, a minha irmã mais velha
casou-se. Depois, a minha irmã mais nova
casou-se. Depois, o meu pai morreu. Hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. Cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. Mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
Enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.
— José Luis Peixoto, in "A Criança em Ruínas".
Hoje, ao pensar nas despedidas e nas viagens prometidas, tive a sensação de estar, também eu, a pôr uma mesa invisível. Há cadeiras que se afastam, outras que se aproximam, outras ainda que aguardam quem chegará daqui a meses ou anos, quem sabe. A mesa, porém, mantém-se. Alarga-se, encolhe, muda de lugar, mas continua lá, numa casa concreta, numa memória, numa fotografia ou num poema.
Fechado este primeiro ciclo de férias, começa amanhã o segundo, com a tradicional romaria às terras de Basto. Outro tipo de mesa, outra forma de presença. A romaria é, no fundo, uma grande mesa coletiva: estende-se pela estrada, pelas igrejas, pelos largos, pelas tascas, pelos encontros que se repetem ano após ano, mesmo quando já não estão todos, mesmo quando há ausências que, infelizmente, se tornam definitivas. Há sempre alguém que acende a vela, que leva a merenda, que sobe a encosta, que mantém viva a tradição como quem insiste em pôr a mesa mais uma vez.
Talvez para hoje seja essa a lição discreta do dia: as nossas vidas são feitas de mesas que se montam e desmontam, de romarias que nos levam e trazem, de lugares vazios que, apesar dos pesares, nunca ficam totalmente vazios. Cada despedida traz consigo um lugar a mais à mesa da memória. Assim como, cada promessa de reencontro é uma cadeira que reservamos no futuro, com o nome de quem esperamos voltar a ver.
No nosso caso, enquanto um de nós estiver vivo, nunca seremos menos de cinco. Porque, na hora de pôr a mesa — seja numa cozinha concreta, seja numa romaria em terras de Basto, seja em terras do Uncle Sam — estarão sempre sentados connosco todos aqueles que fizeram, e fazem, da nossa vida aquilo que ela é.
Hoje, o poema acompanhou-me de perto. Amanhã, a estrada fará o resto...

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