Nem Toda a Gente Tem Razão

"A mentira continua a ser mentira mesmo que todos acreditem nela. A verdade continua a ser verdade mesmo que ninguém acredite nela."  

— David Stevens

Existem frases que parecem simples até percebermos o quanto contrariam a forma como, na prática, costumamos avaliar as coisas. Esta é uma delas. Vivemos rodeados de sondagens, de "opiniões generalizadas", de argumentos que se apoiam no número de pessoas que os partilham, como se a quantidade de crentes fosse, por si só, prova de qualidade. E, no entanto, a frase em epígrafe de David Stevens recorda-nos algo incómodo: a verdade não precisa de maioria para ser verdade, e a mentira não deixa de ser mentira só porque conquistou consenso.

Esta ideia não é nova, nem exclusiva de David Stevens. Gandhi dizia, de forma parecida, que um erro não se transforma em verdade por ser repetido inúmeras vezes, tal como a verdade não se transforma em erro apenas por lhe faltar apoio público, ela mantém-se de pé por si mesma, sustentada pela sua própria natureza, e não pela aprovação de quem a rodeia. Por sua vez, William Clement Stone, no mesmo sentido, afirmava que a verdade será sempre verdade, independentemente da incompreensão, da incredulidade ou da ignorância de quem a observa. No fundo, estamos perante formulações diferentes de um mesmo princípio: a validade de um facto não depende de quantas pessoas o reconhecem.

Isto é particularmente difícil de aceitar hoje, numa altura em que vivemos imersos em redes sociais, algoritmos e câmaras de eco que recompensam aquilo que gera concordância imediata, não aquilo que é rigoroso. Uma ideia errada, partilhada por milhões, ganha um manto de credibilidade que nada tem a ver com a sua veracidade real. E uma ideia correta, mas pouco popular, pode passar despercebida e/ou ser silenciada não porque seja falsa, mas porque incomoda, contraria interesses ou simplesmente não é aquilo que a maioria quer, ou escolhe, ouvir.

Isso não significa que devamos desprezar o consenso ou o debate coletivo. Afinal, a discussão pública continua a ser essencial para testar, corrigir e aprofundar aquilo em que acreditamos, sobretudo no âmbito dos ideais democráticos que regem o modelo de Estado de Direito em que vivemos. O problema surge quando confundimos consenso com verificação. O consenso diz-nos o que as pessoas pensam, mas não nos diz, por si só, o que é factualmente correto. São coisas diferentes, e a confusão entre elas é talvez uma das formas mais eficazes de deixar circular más ideias travestidas de certezas coletivas.

E talvez seja este o convite que a frase de David Stevens nos deixa: manter sempre alguma distância crítica entre aquilo em que as pessoas acreditam e aquilo que, de facto, é verdadeiro. Continuar a perguntar, mesmo quando a resposta parece já dada por todos. Porque, quer se queira ou não, a verdade não pede licença a ninguém para continuar a ser o que é, já a mentira, por mais gente que a repita, não deixará nunca de ser mentira.

Fica a nota para a minha reflexão e, se assim o quiserem, também para a vossa.

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