Capra e a estrela caída do céu

Há filmes que envelhecem mal e há filmes que se tornam mais necessários com o tempo. “Do Céu Caiu Uma Estrela”, título com que Frank Capra nos presenteou em 1947, pertence claramente à segunda categoria, talvez porque a pergunta que faz, debaixo de todo o sentimentalismo natalício, nunca deixou de ser incómoda: o que vale, de facto, uma vida comum, vivida sem grandes feitos, numa cidade pequena onde nada de extraordinário parece acontecer?

Este é um daqueles filmes que, confesso, vi cedo demais. Não porque não o entendesse, mas porque ainda não tinha a idade, ou a maturidade, para reconhecer as perguntas que me deixou para responder.

Vi “Do Céu Caiu Uma Estrela”, de Frank Capra, numa altura em que a ideia de uma vida poder ser feita de renúncias me parecia um problema de adultos, daqueles que ficavam arrumados em conversas longas e decisões distantes. George Bailey, a personagem principal, queria partir, conhecer mundo, construir coisas, tornar-se alguém fora da pequena Bedford Falls. E acaba por ficar. Fica pelo pai, pela família, pela responsabilidade, pelos outros. Fica tanto tempo que, a certa altura, já não sabe se ficou por escolha ou se a escolha lhe foi acontecendo — e quantos de nós não passámos por aí, a calçar os sapatos de Bailey, a ficar por todas as razões e mais algumas, pelos outros, mas raramente por nós próprios, como se o autocuidado não fosse importante.

Talvez seja essa a parte mais difícil do filme: não a do anjo, nem a da ponte, nem a da cidade alternativa onde tudo correu pior. É perceber que todos nós, em algum momento, olhamos para trás e sentimos a presença discreta das vidas que não vivemos. A cidade onde não morámos. O trabalho que não aceitámos. A pessoa a quem não dissemos sim, ou não. A versão de nós que teria tido mais dinheiro, mais liberdade, mais mundo, mais fotografias para mostrar aos outros.

É fácil romantizar essas vidas. As vidas não vividas têm a enorme vantagem de nunca nos terem desiludido. Não pagam contas, não envelhecem, não discutem por coisas pequenas, não nos obrigam a telefonar a ninguém num dia mau. Permanecem intactas, suspensas numa espécie de juventude perpétua, como uma casa que vemos de longe e imaginamos sempre mais bonita por nunca termos entrado nela.

O filme de Capra sugere, porém, uma crueldade mais generosa: talvez a vida que escolhemos não seja menor só porque não se parece com a que imaginámos. Talvez o seu valor esteja precisamente nas marcas que deixa sem darmos por isso. Nas pessoas que encontraram abrigo porque ficámos. Nos problemas que não aconteceram porque alguém resolveu estar presente. Nas pequenas lealdades que ninguém transforma em história, porque a maior parte das histórias prefere falar de partidas a falar de quem permanece.

Não se trata de defender a resignação, essa prima triste da coragem. Há partidas que têm de acontecer e lugares onde ficar é apenas uma forma lenta de desaparecimento. Mas há também uma injustiça que cometemos contra nós próprios quando medimos a nossa vida apenas pelo que lhe faltou. Como se tudo o que não fizemos fosse necessariamente maior do que aquilo que sustentámos.

George Bailey só percebe o que foi depois de lhe mostrarem o mundo sem ele. Nenhum de nós terá, infelizmente, um anjo de serviço com orçamento para construir essa demonstração. Resta-nos um trabalho menos cinematográfico e mais difícil: olhar para a vida que temos, com as suas escolhas imperfeitas e os seus desvios definitivos, e tentar reconhecer nela não apenas o que perdemos, mas também aquilo que, talvez sem saber, ajudámos a manter de pé.

E se há uma coisa que estas férias, com o seu tempo de pausa raro e bem-vindo, me deram, foi precisamente isso: espaço para parar, ler e (re)ver bom cinema — e boas séries também — sem pressa de tirar conclusões definitivas de nenhum deles.

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