Uma pintura, uma memória
Ontem falámos aqui do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), avistado ao longe, em obras, do convés de um barco a atravessar o Tejo. Hoje, essa imagem trouxe-me à memória uma pintura que ali está guardada, a saber, a Anunciação de Frei Carlos, e que marca um momento muito importante na minha vida, mas cuja estória, parte integrante da história da minha vida, não cabe nesta pequena entrada.
Não sei bem porquê, mas há qualquer coisa naquela pintura que me toca de forma diferente das outras. Talvez seja o silêncio da cena, o anjo recuado num canto, quase discreto, e a Virgem entregue a uma expressão reflexiva, como se sentisse mais do que visse a presença que a visita. Talvez seja a luz suave, aquele cromatismo quente que os flamengos sabiam pintar como poucos. Ou talvez seja apenas o facto de se saber tão pouco sobre o homem que a pintou.
Frei Carlos era, ao que tudo indica, um monge de origem flamenga que viveu isolado num convento perto de Évora, no início do século XVI. Não sabemos quase nada sobre ele: nem porque veio para Portugal, nem o que fazia antes. Ficou-nos apenas a obra, produzida numa oficina onde vários artistas trabalhavam em conjunto, de forma tão anónima que hoje é quase impossível separar a mão de um da mão dos outros.
Mas há qualquer coisa de belo nessa ideia: um quadro que sobreviveu cinco séculos, guardado e cuidado, mesmo sem sabermos ao certo quem o pintou. E talvez seja também por isso que gosto de voltar àquelas salas de vez em quando. Não para estudar, apenas para olhar. Porque há coisas que continuam a falar connosco, mesmo quando já não sabemos quem as fez falar primeiro.
É isto...

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