A génese de um conto entre o sagrado e o profano: Porquê "Margarida"?
É verdade, esta ideia de revisitar os escritos que tenho no Recanto das Letras tem sido uma verdadeira aventura. Por isso, nada melhor do que encerrarmos esta primeira temporada com chave d'ouro, analisando aquele que, pelo menos para mim, é um dos contos mais conseguidos e, confesso, desafiantes.
Sempre atribuí uma grande importância aos acontecimentos marcantes da minha vida e às datas em que ocorreram, pelo que, embora já tivesse este texto escrito há cerca de uma semana, planeava publicá-lo somente mais tarde, numa data específica, à qual, por razões que só o universo conseguirá explicar, atribuí especial significado. Este conto é um, entre outros, dos que, como escrevo na minha breve biografia no Recanto das Letras, são inspirados pelas minhas vivências e gostos, matéria-prima para as criações que ali partilho.
Há títulos que escolhemos por instinto e só compreendemos na sua plenitude depois de os termos usado. Foi precisamente isso que aconteceu quando, há cerca de dois anos, escrevi "Margarida". Sabia que precisava desse nome, sabia que não podia ser outro, mas só bastante depois de terminado o conto consegui, finalmente, perceber por completo a razão pela qual a minha mão insistira nele, e não noutro qualquer.
Margarida, como muitos leitores reconhecerão, é o nome português para Margarete, mais conhecida pelo diminutivo Gretchen, a jovem que Fausto seduz na obra-prima de Goethe, com a ajuda inestimável de Mefistófeles. É uma escolha deliberada, mas também uma escolha perigosa, porque convida imediatamente o leitor a projetar sobre a minha personagem o destino da personagem original, e a minha Margarida, permitam-me este excesso de zelo autoral, não segue, de forma alguma, o mesmo caminho que a Gretchen goethiana.
Na peça de Goethe, Gretchen é o exemplo mais puro da inocência arrastada para a desgraça por um homem experiente e por um demónio que lhe sussurra ao ouvido. Ela ama sem calcular, entrega-se sem se proteger, e mesmo quando tudo se desmorona, mesmo quando mata inadvertidamente a própria mãe e depois, em desespero, o filho nascido fora do casamento, a sua alma permanece, apesar de tudo, marcada por uma inocência que o pecado que a rodeia não chega a destruir. É salva, no final, precisamente por essa pureza, e é essa mesma pureza que, mais tarde, intercede junto da Virgem Maria pela salvação do próprio Fausto. Gretchen não peca por vaidade. Peca, antes, por amor cego, e é redimida por essa mesma cegueira, que afinal era feita de inocência e não de cálculo.
A minha Margarida é uma inversão quase perfeita desta figura. Não é ela quem é seduzida. É ela quem se convence de que tem uma missão redentora e avança, com determinação silenciosa, ao encontro de Fausto, um homem já duas vezes ferido pelo amor, com a intenção declarada de o resgatar das trevas. O problema, claro, é que essa missão nunca foi verdadeiramente divina. Era, isso sim, uma narrativa que Margarida construíra sobre si própria, ano após ano, desde a tragédia que a marcara no início da vida adulta e que nunca conseguira perdoar a si mesma.
É aqui que entra Narciso, ou melhor, o mito deste, mencionado explicitamente no texto, e que me parece a chave verdadeiramente central do conto, mais até do que o próprio Fausto. Margarida não se apaixona por Deus. Apaixona-se pelo reflexo de si própria que vê refletido na ideia de proximidade com o divino. Tal como Narciso se afoga a admirar a própria imagem na água, Margarida afoga-se numa autoimagem de sofredora redentora, alguém que carrega o peso do mundo à semelhança de Cristo, alguém escolhida para uma missão maior. É uma forma de vaidade espiritual, talvez a mais perigosa de todas as vaidades, precisamente porque se disfarça de humildade e de devoção.
E é essa vaidade, disfarçada de vocação, que a leva a construir, com José, uma réplica doméstica da Sagrada Família. Não é acidental que o marido se chame José, nem que o casal seja descrito como o exemplo da paróquia, nem que ela não descanse até que ele se torne, também, um homem de Deus. Margarida está, sem o admitir, nem sequer a si mesma, a montar um cenário, um pequeno presépio doméstico em que ela ocupa o lugar de Maria, ainda que sem a anuência de qualquer anjo, sem qualquer anunciação real, apenas com a força da sua própria vontade de significar algo maior do que aquilo que é. É uma sacralização do quotidiano que não nasce da graça, mas antes da necessidade, quase compulsiva, de dar sentido religioso a uma dor que nunca foi verdadeiramente resolvida.
O confronto entre o sagrado e o profano, que é aquilo que me propus a explorar, não se dá, portanto, entre dois mundos separados. Dá-se dentro da própria Margarida, que usa a linguagem do sagrado, a cruz, a paixão, a vocação, o resgate de almas perdidas, para justificar impulsos que são, no fundo, inteiramente profanos: o desejo de protagonismo, a atração pelo fruto proibido, a necessidade de fugir a um casamento que já perdera o brilho. Quando finalmente se entrega a Fausto, fá-lo convencida, ainda, de que está a cumprir uma missão divina, quando na realidade está simplesmente a satisfazer um desejo humano, comum, sem qualquer aura de eleição especial.
A verdadeira ironia do conto, de que só me apercebi bem depois de o escrever, está na troca de papéis que descrevo perto do final, entre Marte e Vénus. Ao inverter as expectativas de género que o livro popular de John Gray consagrou, com Fausto a desejar sentimento e compromisso, e Margarida a desejar apenas aventura, o texto sublinha que a verdadeira falência do casal não está no género de nenhum deles, mas na assimetria entre quem ama de forma genuína e quem ama de forma instrumental. Fausto, apesar de duas relações fracassadas, arrisca voltar a acreditar no amor. Margarida, mesmo depois de se entregar ao que chama libertação dos seus demónios, nunca deixa de calcular, nunca deixa de gerir a experiência como um capítulo dentro da narrativa maior que construiu sobre si mesma.
O conto termina, por isso, não com uma resolução, mas com uma repetição anunciada: Margarida, cansada de Fausto, prepara-se para procurar "um outro alguém, idealmente, necessitado de salvação também." É esta frase final que revela, na minha perspetiva, a verdadeira natureza da personagem. Não é uma mulher à procura de amor, nem sequer à procura de Deus. É uma mulher à procura, indefinidamente, de espelhos onde continuar a ver-se como redentora, condenada a repetir o mesmo gesto, com pessoas diferentes, sem nunca alcançar a redenção que tanto proclama desejar para os outros.
Talvez seja essa a diferença mais profunda entre a minha Margarida e a Gretchen de Goethe. A de Goethe é salva porque nunca deixou de amar com sinceridade, mesmo através do erro e da tragédia. A minha nunca chega a ser salva, porque nunca chegou verdadeiramente a amar. Amou, isso sim, a ideia de si própria como salvadora, e é essa vaidade, mais do que qualquer pecado carnal, que a mantém prisioneira de um ciclo sem fim, entre o céu que diz procurar e o inferno que, sem o admitir, escolhe sempre habitar.

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