A viagem que não saiu de casa: o sótão da memória
Há textos que só se compreendem verdadeiramente quando paramos de os ler como narrativa e começamos a lê-los como sintoma. Foi isso que me aconteceu ao voltar ao conto "A Viagem", onde é contada a história de uma viagem que, afinal, nunca chegou a acontecer fora da própria cabeça de quem a narra. Na altura em que o escrevi, pensei estar simplesmente a construir uma história de suspense com um twist final, o clássico "e então despertei". Só depois, olhando para a arquitetura interna do texto, percebi que a verdadeira matéria do conto não era a viagem, era o próprio mecanismo da memória e do sonho a construir, sem pedir licença, uma viagem que o corpo nunca fez.
O conto começa, de forma muito deliberada, não com a viagem em si, mas com a evocação da memória que a traz de volta. "A nossa mente é mesmo assim", escrevo, "por vezes transporta-nos no espaço e no tempo até lugares e acontecimentos de que nos vamos esquecendo." Esta abertura já anuncia, sem que o leitor se aperceba de imediato, que tudo o que se segue pertence ao território incerto da memória e do subconsciente, e não ao território sólido dos factos. A imagem que escolho para descrever esse mecanismo, "o subconsciente assume as rédeas, levando-nos numa viagem pelo nosso sótão", não é uma metáfora inocente. O sótão é, na tradição da psicanálise popular, um dos espaços mais recorrentes para descrever o inconsciente: um lugar guardado, pouco visitado, onde se acumulam objetos e memórias que preferimos não confrontar diariamente, mas que continuam lá, à espera de serem revisitados.
A decisão da personagem de evitar as autoestradas, "que, com a sua paisagem sempre igual, retiram tanto sabor às viagens de carro", e seguir pela estrada nacional parece, à primeira vista, uma simples preferência estética. Mas essa escolha tem um significado mais profundo: é a recusa consciente do caminho mais direto, mais seguro, mais previsível, a favor de um percurso mais lento, mais vulnerável ao imprevisto, mais suscetível de nos perder. Não é por acaso que esta imagem me ecoa, ainda hoje, os versos de "125 Azul", dos Trovante, uma das canções da minha vida que, na altura em que escrevi este conto, acabou por ressoar nele: "nem o homem da portagem na entrada da auto-estrada", cantava Luís Represas, descrevendo alguém que parte "sem destino nenhum" à procura de si próprio. A minha personagem, tal como o motociclista anónimo dessa canção, não procura chegar a lugar nenhum específico. Procura, isso sim, o próprio ato de se perder, na esperança implícita, nunca declarada, de que esse perder-se possa revelar algo sobre si mesma que a rotina diária mantém sistematicamente oculto. "Talvez um dia me encontre", cantava a canção. E é essa mesma promessa incerta, mais do que qualquer destino geográfico, que parece motivar a fuga inicial da personagem. E é exatamente isso que acontece, "graças ao meu excelente sentido de orientação geográfica, perder-me". Este perder-se não é apenas geográfico. É também, e sobretudo, um perder-se simbólico, um afastamento voluntário das estruturas que normalmente nos protegem da desorientação, seja ela física ou psicológica.
É nesse estado de desorientação que a personagem chega à aldeia deserta. Não escolhi este cenário ao acaso, nem apenas pela sua eficácia dramática. As aldeias fantasma, aquelas que o despovoamento do interior de Portugal foi silenciosamente esvaziando ao longo de décadas, são talvez um dos exemplos mais puros do que Freud chamava o unheimlich: lugares que outrora foram absolutamente familiares, cheios de vida quotidiana, de casas habitadas, de rotinas domésticas, e que hoje se tornaram estranhos precisamente por reterem, intactos, os vestígios dessa vida que já não existe. Uma aldeia vazia não é um lugar neutro. É um lugar que já foi lar, e que continua a parecer-se com um lar, mas onde já ninguém vive. É essa ambiguidade entre o familiar e o abandonado que torna o cenário tão eficaz enquanto palco para o pesadelo que se segue.
E o pesadelo, quando chega, chega precisamente pela via do som antes da imagem: um grito de mulher, indefinido, sem origem clara, seguido de vultos que se multiplicam na escuridão. Há aqui uma escolha deliberada de não mostrar imediatamente a ameaça, de deixar que ela cresça primeiro no ouvido e só depois na visão parcialmente obstruída pelos vidros embaciados do carro. Esta gradação, do som ao vulto indistinto, e do vulto único aos vultos múltiplos, é a estrutura clássica do medo tal como a literatura gótica a foi aperfeiçoando ao longo dos séculos: nunca mostrar o suficiente, deixar sempre à imaginação do leitor, e da própria personagem, o trabalho mais aterrador de completar o que falta.
Mas é no momento do impacto, "sinto-me preso e sou atingido por alguma coisa", que o conto executa a sua manobra mais reveladora. Em vez de resolver o pesadelo dentro da própria lógica do pesadelo, com uma fuga, uma luta, uma revelação sobrenatural, o texto rompe abruptamente o género que até aí parecia seguir e devolve a personagem, e o leitor, a um espaço absolutamente prosaico: um autocarro cheio de passageiros incrédulos, a meio de uma viagem real e completamente desprovida de mistério. A viagem para norte, a aldeia deserta, os vultos ameaçadores, tudo isso nunca existiu fora do sono breve de alguém que ia simplesmente a caminho de casa.
Esta reviravolta final tem, creio agora, à distância, uma função que vai além do simples efeito de surpresa. Ao revelar que todo o suspense anterior era apenas sonho, o conto não anula o medo que construiu, apenas o desloca de lugar: da ameaça externa e sobrenatural, para a ansiedade interna e absolutamente banal que a desencadeou. O verdadeiro motor do pesadelo não foi nenhuma aldeia amaldiçoada, nenhum vulto sobrenatural. Foi a "monotonia que se havia abatido" sobre a personagem, esse desejo insatisfeito de mudar de vida que, recalcado, emerge disfarçado de terror gótico. O sonho não inventa o medo do nada. Ele pega numa insatisfação real, o tédio de uma rotina, o desejo nunca cumprido de partir, e transforma-o na sua imagem mais assustadora possível, precisamente porque essa insatisfação não encontrou, durante o dia, outra forma de se expressar.
No fundo, talvez seja essa a verdadeira génese deste conto: não uma história sobre uma viagem perigosa, mas uma história sobre a forma como as nossas frustrações mais quotidianas, quando não lhes damos voz enquanto estamos despertos, encontram sempre uma forma de se manifestar enquanto dormimos, ainda que disfarçadas de aldeias fantasma e vultos na escuridão. E talvez seja também por isso que o despertar final, em vez de aliviar a personagem, a deixa apenas envergonhada, suada e a gritar, num autocarro cheio de estranhos. Porque o verdadeiro susto nunca esteve na aldeia. Esteve, e continua a estar, algures dentro de nós, à espera do próximo momento de distração para voltar a emergir.

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