Chad Powers e a arte do recomeço

Tenho andado a assistir a uma série num dos streamings que subscrevo. A série, em si, não é nenhuma obra-prima, mas o seu enredo tem a particularidade e o mérito de partir de uma ideia aparentemente disparatada, mas muito humana: um atleta talentoso que deitou tudo a perder por pura estupidez decide, anos mais tarde, colocar uma peruca, mudar de cara com próteses e inventar uma personagem do nada só para voltar a ter um lugar em campo. A série, com a chancela da Hulu, chama-se Chad Powers e funciona muito bem pelo humor, embora seja aquilo que essa farsa deixa entrever, mais do que ela própria, o que mais me tem prendido ao ecrã.

No fundo, a história não é sobre desporto nem tampouco disfarces ridículos. É acerca da urgência, profundamente humana, de recomeçar. Todos nós, num momento ou noutro, já sentimos o peso de termos errado o caminho ou, simplesmente, de termos ficado presos a uma versão nossa que já não nos serve. E há uma tentação quase irresistível em querer carregar num botão de reinício, apagar o cadastro dos erros passados e apresentarmo-nos ao mundo como se fôssemos alguém completamente novo, livre do rasto de desastres que deixámos para trás.

O problema, claro, é que na vida real não há próteses que nos salvem da nossa própria história. Podemos mudar de rotinas, de cidade, de profissão ou até de discurso, mas aquilo que somos continua lá, sentado no banco dos suplentes, à espera de ver como nos portamos desta vez. E desenganem-se, reinventar-se não é apagar quem fomos. É, antes de mais, aprender a conviver com o que fizemos de errado e, mesmo assim, encontrar coragem para entrar em jogo outra vez.

Há ainda uma outra dificuldade, mais silenciosa, que a série disfarça de comédia mas que, aqui entre nós, não deixa de estar lá: o tempo que passou não volta. O protagonista não recomeça aos vinte anos, com a vida toda pela frente, recomeça mais tarde, já com o peso do que perdeu, e essa é talvez a parte mais corajosa da sua história. Recomeçar não é voltar ao princípio. É continuar a partir do ponto em que se está, aceitando que algumas oportunidades já não voltam da forma como uma vez existiram e que, ainda assim, vale a pena tentar, mesmo que seja tarde, mesmo que seja de forma imperfeita.

Talvez por isso a ideia de uma segunda oportunidade tenha tanta força. Não porque seja fácil ou limpa, mas porque exige admitir que falhámos e, com uma dose considerável de humildade, tentar de novo com o que sobrou.

Às vezes, para voltarmos a ser quem realmente queremos ser, precisamos primeiro da coragem de admitir que a versão anterior precisava de mudar. E se, pelo caminho, conseguirmos rir um pouco de nós próprios, tanto melhor.

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