Nota do dia...
A vida tem uma forma engraçada de nos colocar perante a nossa própria fragilidade. Vivemos como se fôssemos feitos de ferro, inquebráveis, destinados a viver para sempre. Passamos os dias entretidos com listas de tarefas, prazos, pequenas contrariedades, como se o tempo fosse um recurso infinito à nossa disposição. E, de repente, qualquer coisa nos obriga a parar e a lembrar que não é bem assim.
Não é preciso um grande drama para isso acontecer. Basta um susto pequeno, um imprevisto que podia ter corrido pior, um momento em que percebemos, com clareza incómoda, que não controlamos tanto quanto gostávamos de pensar. Nessas ocasiões, a vida deixa de parecer um dado garantido e volta a ser aquilo que sempre foi: uma coisa frágil, provisória, que só continuamos a ter porque, até agora, tudo correu bem.
Há quem viva assustado com esta ideia, e compreendo perfeitamente. Mas talvez o mais útil não seja o medo, e sim uma espécie de atenção mais cuidada ao que já temos. Não é preciso esperar por um susto para nos lembrarmos disto. Podemos escolher lembrar-nos todos os dias, sem drama, apenas com um pouco mais de presença: nas pessoas com quem convivemos, no trabalho que fazemos, no simples facto de ainda estarmos aqui, capazes de escrever, de pensar, de continuar.
Não somos de ferro. Mas também não é a isso que devemos aspirar. Talvez baste sermos suficientemente atentos para dar valor ao que temos, enquanto o temos, sem esperar que seja a nossa fragilidade a lembrar-nos disso.

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