O lugar fica
Podes sempre regressar a um lugar, mas não a um momento.
Há lugares que não existem apenas no mapa. Vivem dentro de nós. Guardam versões nossas que já passaram, silêncios que tiveram o seu tempo, perguntas que ainda não sabíamos responder e dores que, talvez, só encontraram algum descanso depois de serem escritas.
O Diário de Bordo nasceu assim.
Quando o criei, em maio de 2024, não sabia muito bem onde iria dar esta viagem. Sabia apenas que precisava de um lugar. Um espaço onde pudesse pousar algumas inquietações, dar nome ao que, por vezes, parecia difícil de dizer em voz alta e partilhar, ainda que de forma imperfeita, aquilo que a vida me ia ensinando, nem sempre da forma mais suave.
Naquele tempo, vivia um período particularmente exigente. Havia dentro de mim demasiado ruído, demasiadas perguntas e uma solidão que, embora escolhida, também pesava. A escrita surgiu como tantas vezes surge, não como uma solução para tudo, mas como um gesto de sobrevivência. Uma forma de respirar. Um modo de organizar o que parecia desorganizado. Uma tentativa de transformar em palavras aquilo que, por dentro, ainda não tinha forma.
Foi por isso que este espaço se chamou Diário de Bordo.
Porque não era um destino. Era um registo de viagem. Um lugar de passagem, de paragem e de regresso. Um caderno aberto onde fui deixando notas de um universo pessoal, mas que procurei, sempre que possível, tornar também transmissível. Porque, no fundo, mesmo quando escrevemos sobre nós, escrevemos quase sempre a partir de coisas que outros também conhecem: a perda, a esperança, a dúvida, o amor, o medo, a vontade de recomeçar e a necessidade de encontrar algum sentido no meio daquilo que nos acontece.
No primeiro texto que publiquei, escrevia sobre uma viagem interior, pessoal e, quando possível, transmissível. Falava da necessidade de me dar voz e de deixar que os pensamentos, as musas e as inquietações encontrassem o seu lugar. Talvez não imaginasse, nessa altura, que tantas pessoas viriam a passar por aqui.
A verdade é que passaram.
A todos, sem exceção, deixo um agradecimento profundo. Nunca imaginei que um espaço tão pessoal pudesse encontrar tantos leitores. E talvez essa seja uma das mais bonitas surpresas desta aventura: perceber que aquilo que escrevemos a partir de um lugar muito nosso pode, afinal, chegar a alguém do outro lado e fazê-lo regressar.
Não sei se foi a escrita que me curou. Talvez fosse pretensioso dizê-lo. Mas sei que me ajudou a atravessar alguns dias. A olhar para mim com mais honestidade. A perceber que há dores que precisam de tempo, que há respostas que não chegam quando queremos e que há silêncios que também têm algo para nos ensinar.
Sei também que este Diário de Bordo cumpriu o propósito com que nasceu.
Não porque tenha resolvido tudo. A vida não se resolve num conjunto de textos, nem num número de visitas, nem sequer num comentário mais generoso. Mas porque, ao longo deste tempo, me permitiu fazer caminho. E, fazendo caminho, perceber que já não estou exatamente no mesmo lugar interior de onde parti, e ainda bem.
As palavras que aqui deixei pertencem ao momento em que foram escritas. Algumas continuam a fazer sentido. Outras talvez hoje fossem diferentes se voltassem a ser escritas. É assim que deve ser. Afinal, crescemos, mudamos de perspetiva, aprendemos a olhar para o passado com mais ternura e menos julgamento. Não regressamos ao mesmo momento, mesmo quando regressamos ao mesmo lugar.
Por agora, é tempo de fazer uma pausa por aqui.
Não como quem fecha uma porta com estrondo, nem como quem renega aquilo que viveu. Pelo contrário. Esta pausa nasce da gratidão. Gratidão por tudo o que foi escrito, por tudo o que ficou por escrever, por todos os que passaram por aqui e por mim próprio, por ter tido a coragem de começar quando, aqui entre nós, talvez fosse mais fácil continuar calado.
O Diário de Bordo fica. Fica como lugar de memória, de partilha e de caminho feito. Fica como testemunho de uma fase da vida em que precisei de escrever para me ouvir e, talvez, para que alguém, desse lado, percebesse que não estava sozinho nas suas próprias travessias.
Não lhe chamo adeus.
Chamo-lhe apenas um até já.
Porque os lugares importantes não desaparecem quando nos afastamos deles. Permanecem. Esperam por nós. E, quando chegar o momento certo, talvez regressemos. Não ao mesmo instante, porque esse já passou. Mas a um novo momento, com outras palavras, outras perguntas e, espero eu, alguma da serenidade que se aprende quando se aceita que a vida continua a ser uma viagem.
Até já!
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