Entre Judas e o profeta: a génese de "A Decisão"
Há uma escolha que só reparei ter feito depois de terminado o conto, e que hoje, à distância, me parece mais decisiva do que qualquer outra opção estilística que tomei ao escrevê-lo: nunca dei nome à personagem principal de "A Decisão". Sabemos que é um homem, o texto di-lo claramente através do pronome "ele", mas não sabemos mais nada sobre esta personagem. Não tem nome próprio, não tem idade definida, não tem uma profissão claramente identificada, não tem sequer o nome da instituição onde trabalha, pese embora o deixe antever. É apenas "ele", um homem sem outra identidade além do género gramatical que o define, uma sombra que atravessa o conto sem rosto fixo, sem biografia, sem sequer um cargo claramente definido dentro da tal "instituição" também nunca nomeada.
Esta opção, reconheço-o agora, não foi acidental, ainda que na altura em que escrevia não a tivesse pensado em termos tão deliberados. Ao retirar o nome à personagem, retirei também aquilo que normalmente ancora um leitor à especificidade de uma vida: o rosto, a profissão exata, a instituição concreta. O que fica é uma espécie de Everyman burocrático, um homem qualquer perante um sistema qualquer, e é precisamente essa indefinição que aproxima o conto do universo kafkiano, sobretudo de "O Processo", em que Josef K. é detido por um crime nunca especificado, perante uma autoridade cujos contornos nunca se tornam claros. Kafka retratava, segundo a crítica que se tem feito sobre a sua obra, aquilo que se chamou o poder anónimo, sem rosto, sem imperador, disperso por uma hierarquia tão vasta que se torna, ela própria, insondável até para quem dela faz parte.
No meu conto, essa mesma anonimidade aplica-se não só à personagem, mas também à ameaça que a cerca. Os "documentos", nunca descritos em detalhe, o "superior" sem nome, as "outras instâncias" que pressionam sem rosto identificável, o "jornalista" que se apresenta apenas como tal, sem nunca ganhar identidade própria. Tudo no conto participa dessa mesma névoa burocrática que Kafka soube captar como poucos: um sistema que pressiona sem se revelar por completo, que ameaça sem assinar a ameaça, que recompensa sem nunca explicitar o preço exato dessa recompensa.
E é precisamente contra essa névoa institucional que se ergue, a meio do conto, uma voz absolutamente distinta de todas as outras: a voz do pai, citando, sem que o diga expressamente, um dos versículos mais conhecidos do Evangelho de João: "A verdade é libertadora! Só a verdade te pode libertar." É uma citação quase literal de João 8:32, "E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará", ainda que transformada da terceira pessoa do plural bíblica para a segunda pessoa do singular, mais íntima, mais parecida com um conselho de pai para filho do que com um sermão dirigido a uma multidão.
Esta escolha de trazer a voz paterna, e não uma voz institucional, religiosa ou jornalística, para pronunciar a única certeza moral clara de todo o conto, não me parece agora inocente. Diante de um mundo de superiores conivente, jornalistas interessados e instâncias anónimas que pressionam por vias obscuras, é apenas a memória de uma voz familiar, quase arcaica na sua simplicidade, que consegue atravessar o ruído todo e chegar, finalmente, à consciência da personagem. É como se a verdade, para poder ser ouvida em meio a tanta manipulação institucional, precisasse de regressar à sua forma mais primitiva: não a verdade jurídica, não a verdade jornalística, mas a verdade ensinada em casa, entre pai e filho, antes de qualquer carreira, antes de qualquer instituição, antes de qualquer promessa de promoção.
Há, também, uma tensão bíblica implícita entre duas figuras que o conto não nomeia diretamente, mas que ecoam por baixo da superfície do texto: Judas e o profeta incómodo. Por um lado, a personagem é tentada por uma recompensa material, uma promoção conseguida "por meios menos lícitos", o equivalente moderno e burocrático das trinta moedas de prata. Por outro, é convocada, através da memória paterna, para o papel do profeta que deve falar a verdade mesmo sabendo que isso lhe custará a posição, a segurança, talvez a própria vida que construiu. O conto nunca resolve claramente qual dos dois caminhos a personagem escolhe, e é essa indeterminação final, sublinhada pela frase que fecha o texto, "Mas a decisão era sua...", que transforma "A Decisão" de uma simples fábula moral num verdadeiro exercício existencialista.
Não é por acaso que escolhi terminar assim, em suspenso, sem revelar o desfecho. Ao contrário do que talvez um leitor mais convencional esperasse de um conto sobre um dilema ético, não quis dar uma resposta. Quis, isso sim, devolver ao leitor a mesma angústia da personagem, a mesma responsabilidade incontornável que Sartre descrevia como a condição fundamental da liberdade humana: estamos condenados a escolher, mesmo quando gostaríamos que outra pessoa, outra instituição, outro sistema, decidisse por nós. A "engrenagem" que pressiona a personagem ao longo de todo o conto tenta precisamente isso, dissolver a sua responsabilidade individual numa responsabilidade coletiva e difusa, um "todos sabem, mas ninguém decide", uma cumplicidade generalizada sob a qual seria fácil esconder-se. E é justamente essa dissolução da responsabilidade que a última frase do conto recusa. "A decisão era sua." Não da instituição, não do superior, não do jornalista, não do sistema. Sua, e apenas sua.

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