A reter, meu pequeno gafanhoto


As palavras não são minhas, mas podiam ser.

A vida ensinou-me que há dias em que sorrir não significa que está tudo bem. Significa apenas que, apesar de tudo, das tristezas e dos pesos que carregamos, ainda conseguimos encontrar dentro de nós qualquer coisa de bom e bonito para dar aos outros: um gesto, uma palavra ou uma presença, por mais pequena que seja.

Não sei se isso nos torna enormes, como nos diz Pedro Chagas Freitas, mas sei que exige uma força particular, diria mesmo, muitas vezes, hercúlea: a de não deixar que aquilo que nos dói nos retire por completo a capacidade de reconhecer a dor de quem está ao nosso lado.

Há quem chame a isto generosidade. Outros chamar-lhe-ão resiliência. Eu prefiro pensar que é simplesmente humanidade, essa capacidade imperfeita de continuar a cuidar, mesmo quando também precisávamos que cuidassem de nós.

Naturalmente, e acreditem que falo com conhecimento de causa, ninguém deve viver permanentemente a esconder o que sente atrás de um sorriso. Há dores que precisam de ser ditas, partilhadas, acolhidas. Mas há também momentos em que, sem negar aquilo que carregamos, escolhemos oferecer luz a alguém que, naquele instante, talvez precise dela mais do que nós.

E é precisamente isso que esta frase nos recorda, como uma verdade que, afinal, sempre esteve diante de nós: não somos apenas aquilo que nos acontece, nem somente o peso que levamos. Somos também aquilo que, apesar dos pesares, conseguimos entregar aos outros. E isto, meu pequeno gafanhoto, faz toda a diferença.

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