Do silêncio à ação: o duplo sentido de Zacarias

A primeira coisa que me salta à vista em "Zacarias", e que talvez tenha passado despercebida na altura em que escrevi o conto, é o modo como é pedido ao leitor, literalmente, que recue no tempo e no espaço, "quem sabe a relatividade nos ajude a sair do calor da ação". É uma frase que brinca com a física, mas que funciona, estruturalmente, como todos os "flashbacks" presentes em outros contos aqui já analisados: um afastamento deliberado do presente emocional da narrativa para se conseguir ver com mais lucidez o que aconteceu. A diferença é que aqui esse afastamento é explicitado como método, quase um convite ao leitor para participar do próprio exercício de distanciamento que Zacarias, na história, não conseguia fazer sozinho, "estava toldado pela raiva". Há, portanto, uma ironia estrutural que nos é apresentada e tem, em si, algo de belo: o narrador consegue fazer exactamente aquilo que a personagem, presa na urgência da ação, não consegue fazer por si mesma.

A referência mais explícita do conto é a comparação de Zacarias com "uma espécie de velho do Restelo, um arauto da desgraça que ninguém ouvia e que, por vezes, ainda era alvo de chacota". Vale a pena recordar quem é esta figura: no episódio d'Os Lusíadas, o Velho do Restelo é um ancião que, na praia, antes da partida das naus, profere um discurso veemente contra a aventura ultramarina, acusando-a de ser fruto da cobiça e da vaidade, e não da verdadeira glória. É uma voz de razão e experiência que se opõe ao ímpeto emocional dos que partem, condenada moralmente pelo narrador épico, mas cuja lucidez a História, com o tempo, viria a validar em muitos aspectos. Zacarias reconhece-se nessa figura: também ele alertou "aqueles que o haviam escolhido" para os perigos que via e também ele foi ignorado e ridicularizado, vendo o tempo confirmar o que dizia.

Mas há aqui uma inversão que merece especial atenção, exatamente como aconteceu com Orfeu em "Pipa". O Velho do Restelo é, por definição, a voz da contenção, do "não partir", do ficar e resolver os problemas em casa antes de se lançar à aventura. É uma figura estática, de discurso e de advertência, não de ação. Zacarias, no entanto, não termina o conto na postura do Velho do Restelo. Termina-o decidido a "assumir as rédeas dos acontecimentos", a agir, a partir, por assim dizer, rumo a um confronto directo. A comparação que ele próprio faz consigo mesmo descreve, portanto, apenas a primeira metade do seu percurso, os anos de aviso ignorado, mas não a segunda, o momento presente em que decide deixar de ser um profeta passivo e tornar-se agente da ação. É um Velho do Restelo que, cansado de pregar ao vento, decide finalmente embarcar.

O momento de maior tensão simbólica do conto é, sem dúvida, a frase "era, por isso, necessário agir, expulsar do templo os vendilhões, pois só assim seria possível a salvação". A referência é inequívoca e remete para um dos episódios mais citados dos Evangelhos: Jesus, ao encontrar o Templo de Jerusalém ocupado por cambistas e vendedores de animais, expulsa-os com um chicote de cordas, denunciando que transformaram "a casa de meu Pai" numa "casa de negócio". É um gesto de indignação, sim, mas uma indignação canalizada, simbólica, justificada por uma tradição profética anterior, e não um ato de fúria pessoal ou vingança.

É aqui que o conto instala uma ambiguidade que me parece decisiva, e que talvez seja o seu verdadeiro centro de gravidade. O texto abre com Zacarias "toldado pela raiva", incapaz de "ver além", precisamente o oposto da lucidez serena que a tradição atribui à indignação de Cristo no Templo. Se a expulsão dos vendilhões é, na fonte bíblica, um acto de clareza moral e de purificação de um espaço sagrado corrompido, a raiva de Zacarias, tal como descrita no início do conto, é turva, cega, quase incapacitante. O conto, confesso, não resolve esta tensão propositadamente: não sabemos se Zacarias está de facto prestes a agir com a justiça serena de quem expulsa os corruptos por bem comum, ou se está a usar essa mesma imagem bíblica para dignificar aquilo que pode não ser mais do que uma explosão de ressentimento pessoal acumulado ao longo de meia década de silêncio. O conto termina exactamente nesse ponto de suspensão, "Zacarias sabia o que tinha a fazer", sem revelar o quê, deixando o leitor, tal como os colegas de Zacarias ao longo da história, sem saber se está perante um reformador ou perante alguém que perdeu a medida das coisas.

Por fim, há um pormenor que, embora à distância reconheça não ter sido proposital, enriquece a leitura: o próprio nome Zacarias carrega, na tradição bíblica, exactamente esta dualidade entre silêncio e voz, entre dúvida e profecia. O Zacarias de Lucas 1, pai de João Baptista, fica mudo por não ter acreditado, num salto de fé, na palavra do anjo Gabriel, e só recupera a fala, em plenitude profética, no momento em que o filho nasce e o plano se cumpre. É curioso como esta estrutura, longos anos de voz contida seguidos de uma explosão final de palavra e ação, coincide quase perfeitamente com a trajetória da personagem, que passa "meia dezena de anos" sem ser ouvida antes de decidir, finalmente, agir. Se juntarmos a esta coincidência o facto de o Antigo Testamento ter também um profeta chamado Zacarias, associado a visões de julgamento e de purificação do sacerdócio corrupto, percebe-se que o nome escolhido para a personagem já continha, em germe, todo o arco narrativo que o conto desenvolve: um homem que devolve a voz ao silêncio acumulado através de um gesto de purificação cujo caráter, redentor ou destrutivo, o conto se recusa a revelar.

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