Antes que seja tarde
Há uma ideia que, de quando em vez, me vem à cabeça quando penso em certas fases da vida: seria bom existir uma forma de reconhecer os bons momentos enquanto ainda os estamos a viver, e não apenas depois de já os termos deixado para trás. É uma constatação simples, quase óbvia, eu sei, mas que tem qualquer coisa de desconfortável quando a paramos a pensar nela com a serenidade necessária.
No fundo, existe uma certa injustiça na forma como a memória funciona. Vivemos quase sempre distraídos, ocupados a resolver problema atrás de problema, a queixarmo-nos do trânsito, do trabalho, da falta de tempo. Só mais tarde, quando já não há maneira de recuperar o tempo perdido, é que a luz muda de tom e tudo aquilo que parecia trivial se transforma em precioso. O presente nunca vem etiquetado. Não há aviso, não há sirene, não há ninguém a dizer: “presta atenção, isto aqui e agora é bom, vais querer lembrar-te disto.”
Talvez, por isso, o melhor seja não tentar adivinhar, a cada instante, se estamos ou não a atravessar uma dessas fases que só mais tarde reconheceremos como boas. Seria um exercício exaustivo e, provavelmente, impossível de sustentar, pelo que o ideal talvez seja cultivar um hábito mais discreto: partir do princípio de que este momento, o de agora, também há de ficar guardado como memória boa, mesmo que hoje pareça apenas mais um dia igual aos outros. Sem solenidade a mais, sem transformar o quotidiano num museu antes do tempo, mas com uma espécie de gratidão de fundo, silenciosa, quase involuntária.
Porque a verdade, por mais que custe admiti-la, é que também isto que vivemos agora, com todas as suas contrariedades e cansaços, há de ser um dia os bons velhos tempos de alguém. E talvez valha a pena tentar perceber isso enquanto ainda cá estamos, aqui e agora.

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