O "se", essa erva daninha
Hoje acordei com uma música na cabeça. Não sei bem porquê, talvez seja porque há canções que chegam até nós antes de conseguirmos dar um nome àquilo em que andamos a pensar. A música? Perguntam vocês, e bem, era “Se cá nevasse fazia-se cá ski”, dos Salada de Frutas, canção de 1981 que, por detrás do tom leve e quase brincalhão, faz uma pequena caricatura muito portuguesa, e humana também, da espera, do desejo de que tudo mude sem que sejamos nós a ter de mudar primeiro.
“Sebastião cá voltasseSe a moleza se cansasseSe o Eusébio ainda jogasseAi! Que fintas que eu faria um dia.”
É difícil não sorrir com estes versos. Há neles o regresso de D. Sebastião, a esperança de que a preguiça finalmente se canse de existir, a nostalgia de um Eusébio ainda capaz de fintar o mundo e, pelo meio, a promessa de que, então sim, nós próprios faríamos grandes coisas. Tudo depende de uma condição anterior, de qualquer coisa exterior a nós, de uma alteração suficientemente milagrosa da realidade que nos permita, finalmente, (re)começar.
Depois, a canção torna-se mais séria, ainda que conserve a mesma leveza:
“Há sempre um ‘se’ no caminhoQue me deixa as mãos tão presasSe eu cortasse o ‘se’ daninhoTalvez me livrasse das incertezas.”
Bem, há, de facto, sempre um “se” no caminho. “Se tivesse mais tempo.” “Se soubesse como vai acabar.” “Se a vida estivesse mais organizada.” “Se os outros fossem mais claros.” “Se tivesse a certeza de que não ia sofrer.” Enfim, vivemos, muitas vezes, como se a felicidade, em especial a nossa, estivesse escondida do outro lado de uma condição que ainda não foi cumprida. E talvez seja esse o conforto mais perigoso de todos, precisamente por não ser o conforto de quem descansa, mas o de quem adia ad aeternum.
Não me refiro, evidentemente, ao “se” que nos obriga a ser prudentes. Como é claro, existem decisões que precisam de tempo, circunstâncias que pedem cuidado e silêncios que devem ser respeitados. Nem toda a hesitação é cobardia, por vezes é apenas, e tão somente, maturidade. Mas existe outro “se”, mais discreto e persistente, que não nos protege de nada. Esse não pondera: paralisa. Não nos dá tempo para compreender melhor a vida, dá-nos pretextos para nunca a viver plenamente.
É o “se” que nos impede de fazer uma chamada importante, de pedir uma conversa necessária, de dizer a alguém aquilo que há demasiado tempo guardamos dentro de nós. É o “se” que nos convence de que devemos esperar por uma certeza que talvez nunca venha. Como se a vida, generosa e organizada, nos devesse entregar previamente todas as respostas antes de nos pedir uma decisão.
Mas as coisas importantes raramente funcionam assim. Quase nunca avançamos porque temos a certeza. Avançamos, quando avançamos, porque percebemos que permanecer onde estamos se tornou mais doloroso do que enfrentar aquilo que desconhecemos.
Talvez cortar o “se” daninho não seja libertarmo-nos de todas as incertezas. Isso seria pedir demasiado à vida, e talvez até retirar-lhe parte do mistério. Talvez seja apenas deixar de usar a incerteza como desculpa para não agir. É reconhecer que não controlamos as respostas dos outros, os desencontros do tempo, os receios que ainda nos habitam ou o rumo exato das coisas. Mas controlamos, pelo menos em parte, a honestidade com que chegamos até elas, e isso, estimad@s, é o mais importante.
E sabem? Talvez seja nesse gesto que começa alguma da nossa liberdade: não na garantia de que tudo correrá bem, mas na decisão de não continuar preso ao “se”.
Mais um breve apontamento de um universo pessoal e transmissível, para a minha e, se assim quiserem, a vossa reflexão também.

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