Sobre Ciclos, Equinócios e Deixar Ir

Há dias em que sentimos, sem sabermos bem explicar porquê, que algo está a encerrar-se. Não é uma epifania súbita, nem um acontecimento único que resolve tudo de uma vez. É antes a soma silenciosa de pequenos alívios, aqui e ali, que um dia percebemos terem-se juntado até formarem, finalmente, um verdadeiro encerramento. 2026 tem sido, para mim, um desses anos, e ainda bem.

Não é coincidência que esta reflexão me chegue agora, à beira do equinócio de outono, que este ano irá calhar nesta quarta-feira, dia 23 de setembro, à 1h05 da madrugada, hora local. É o momento exato em que o dia e a noite se equilibram, antes de a escuridão começar a ganhar terreno sobre a luz, e há algo de extraordinariamente simbólico nesse instante de suspensão, uma espécie de breve equilíbrio antes da mudança. O outono, mais do que qualquer outra estação, ensina-nos a arte de deixar cair aquilo que já não serve, as folhas que a árvore já não precisa de suster, para se preparar, em silêncio, para o que há de vir.

Este ano trouxe-me conversas que há muito estavam pendentes, e que finalmente tiveram lugar. Trouxe-me também algo mais difícil de descrever: um reencontro comigo próprio, uma espécie de plenitude que não sabia bem definir enquanto não a sentia. E trouxe-me, sobretudo, a libertação de um peso que carregava há demasiado tempo nos ombros, um peso que, por vezes, aliviava momentaneamente, mas que insistia em voltar, como se estivesse sempre à espera de um novo motivo para se reinstalar.

Há uma canção dos U2,  intitulada "Bad", do álbum The Unforgettable Fire, de 1984, que tenho ouvido nestes últimos dias, e que, de forma quase inquietante, parece descrever este processo com maior precisão do que eu próprio conseguiria. Bono escreveu-a a pensar na dependência, mas confessou, ao longo dos anos, que a canção acabou por se tornar sobre qualquer forma de aprisionamento emocional, sobre o vazio de viver uma mentira, sobre o isolamento e a autocondenação que carregamos sem nos apercebermos. E, no entanto, a canção não termina em desespero, mas antes numa afirmação de vigília, de estar finalmente desperto, sem fugir daquilo que antes evitávamos, ou não queríamos, sentir.

Essencialmente, é isso que sinto ter acontecido, e estar a acontecer, este ano. Não foi, nem tem sido, um "deixar ir" instantâneo, foi, e é, um processo, diria quase uma disciplina diária, autoimposta, tal como a canção o descreve repetidamente ao longo de cada verso. Foi preciso enfrentar, uma a uma, as conversas que evitava, sentir o desconforto de olhar de frente para sentimentos confusos e, por vezes, contraditórios, e só depois, muito depois, sentir esse peso finalmente a desprender-se, como as folhas se desprendem da árvore, não por fragilidade, mas porque já cumpriram o seu propósito.

Possivelmente, será este o verdadeiro significado de um ciclo a encerrar-se: não o esquecimento do que passou, nem tampouco a pretensão de que nunca aconteceu, mas a aceitação tranquila de que aquilo que foi, já não precisa de continuar a pesar sobre o que será. O outono que está a chegar, desta vez, não promete apenas frio e escuridão. Promete também esse equilíbrio breve, esse instante de respiração antes da mudança, em que finalmente se pode, sem sentimentos de culpa, deixar cair aquilo que já não serve e, assim, ver com maior clareza a luz que se anuncia depois da última folha cair.

E se há uma coisa que este ano me ensinou, é que esse deixar cair o que já não nos serve, por mais difícil que pareça a meio do processo, é sempre, no fim do dia, um ato de esperança para nós e, não menos importante, para os outros.

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