Das bolas de cristal, ou não


Existem objetos que, à primeira vista, parecem ser uma coisa inteiramente diferente daquilo que são. Por exemplo, esta pequena esfera de vidro, encontrada no alto da serra, poderia facilmente passar por uma bola de cristal, dessas que tantas vezes associamos a quem pretende adivinhar o futuro, antecipar uma decisão, descobrir uma resposta escondida ou, no limite, evitar uma surpresa que ainda não chegou.

Confesso que quando me deparei pela primeira vez com uma, durante alguns segundos, também me ocorreu essa associação. A esfera escura, o suporte metálico, a montanha estendida ao fundo, o vale quase perdido na distância, tudo contribuía para que o objeto parecesse pertencer mais ao universo da adivinhação do que ao da ciência. Faltava-lhe apenas uma mesa redonda, uma sala pouco iluminada e alguém disposto a dizer-nos aquilo que mais gostaríamos de saber.

Mas não, não era uma bola de cristal. Ou, pelo menos, não era uma bola de cristal no sentido em que normalmente usamos a expressão.

Era um instrumento criado para fazer algo bastante mais humilde e, talvez por isso, mais honesto. Não tenta prever o que virá. Não promete respostas para as perguntas que ainda não tiveram tempo de se formar. Não nos diz se amanhã haverá sol, chuva, felicidade, desilusão ou mudança. Limita-se a registar aquilo que aconteceu.


A esfera recebe a luz do sol e concentra-a numa tira de cartão, como as que estão na imagem acima. À medida que o dia avança, o sol deixa um rasto, mais contínuo ou mais interrompido, consoante a sua presença. No final, fica registado o tempo em que houve luz. Não o tempo que poderia ter existido, não o tempo que desejámos que existisse, não o tempo que imaginámos ou receámos. O tempo que existiu, apenas.

Confessem lá, é bonita esta ideia, não é?

Vivemos numa época que nos pede constantemente previsões. Queremos saber se vale a pena insistir, se uma conversa correrá bem, se uma decisão nos conduzirá ao sítio certo, se a pessoa que temos diante de nós ficará, partirá ou nos dará a resposta que esperamos. Queremos saber se arriscamos ou se nos protegemos, se avançamos ou se esperamos, se falamos agora ou se guardamos as palavras para um dia em que tudo pareça mais seguro.

No fundo, gostávamos de ter uma bola de cristal.

Gostávamos de poder olhar para uma esfera qualquer e descobrir que o futuro, afinal, já está decidido e pode ser lido sem margem para erro. Seria confortável. Saberíamos onde pôr os pés, em quem confiar, que caminhos evitar e que portas abrir. Não haveria espaço para o engano, para a expectativa ou para aquele desconforto que nasce sempre que percebemos que não controlamos tudo. E a vida, aqui entre nós, seria muito menos interessante, porque, sendo inteiramente previsível, seria também, muito provavelmente, menos livre.

A pequena esfera na serra não oferece garantias, e ainda bem. Não vive de hipóteses, promessas ou receios. Não responde ao “e se?”. Apenas acolhe a luz quando ela chega e deixa uma marca quando ela passa. É um objeto sem ansiedades, quase indiferente àquilo que nós, humanos, fazemos com o futuro. Se o sol aparece, regista-o. Se as nuvens o escondem, regista isso também. Se o dia se divide entre claridade e sombra, fica lá, no cartão, a memória exata dessa alternância.

Talvez devêssemos aprender qualquer coisa com a forma como este instrumento cumpre a sua função. Não temos de saber tudo antes de agir. Não temos de exigir ao futuro uma garantia para cada decisão importante. Não temos sequer de fingir que a incerteza não existe. Ela existe, faz parte de nós, acompanha-nos em quase todas as escolhas que realmente contam. O que podemos fazer é olhar para o que já vivemos, reconhecer a luz e as sombras que nos trouxeram até aqui, e decidir, com a honestidade possível, o que fazer a seguir.

Não é pouco, acreditem.

Aquela esfera de vidro não me mostrou o futuro. Não me disse qual seria o caminho certo, nem respondeu às perguntas que levamos connosco quando subimos uma montanha ou quando descemos de volta ao vale. Mas, talvez por não prometer aquilo que não pode dar, acabou por lembrar-me de algo importante: o futuro não se adivinha, constrói-se. E, por vezes, constrói-se apenas assim, com a coragem de deixar que a luz do presente nos toque, sem exigir que ela ilumine já todos os dias que ainda não chegaram.

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