Nosferatu
Há figuras que não envelhecem. Mudam de rosto, de cenário, de técnica, de som, de cor, mas continuam a aparecer quando a noite cai, com a mesma falta de maneiras de sempre. O conde Orlok é uma delas.
Estou a ver o mais recente Nosferatu, de Robert Eggers, em streaming, e dei por mim a pensar em Bram Stoker. Não apenas porque o filme recupera inevitavelmente o imaginário de Dracula, mas porque Nosferatu nasceu, desde o princípio, de uma espécie de apropriação mal disfarçada. Em 1922, Murnau quis filmar o romance de Stoker sem ter os direitos para o fazer. Mudou os nomes, o conde Dracula passou a chamar-se Orlok, a ação passou de Londres para uma cidade alemã, mas deixou intacto o essencial: a viagem do mal, vindo de longe, para se instalar onde a vida parecia decorrer com uma tranquilidade razoável. Ou seja, um pouco como na vida real…
É uma origem curiosa para um clássico. Um vampiro que começou por ser quase um pseudónimo, uma criatura obrigada a usar outro nome para poder entrar em cena. Talvez seja por isso que Orlok nunca teve a elegância social de Dracula. Onde o conde de Stoker ainda é sedutor, aristocrático e capaz de circular entre pessoas sem provocar de imediato um pedido de socorro, Orlok parece ter dispensado a máscara. É mais seco, mais doente, mais próximo de uma praga do que de um cavalheiro.
E talvez seja essa a diferença que me continua a prender a esta história. Não vou ao terror à procura de sustos. Vou pelo ambiente, pela promessa de que, durante duas horas, o mundo pode ficar mais sombrio, as casas mais antigas, as sombras mais bem compostas e os homens, como habitualmente, menos atentos do que deviam.
Mas há no vampiro de Nosferatu qualquer coisa mais incómoda do que a simples ameaça. Não é apenas um monstro que entra pela janela. É uma presença que se instala, uma espécie de doença da alma, uma obsessão que atravessa paredes, sonhos e bons costumes. O que assusta não é só o que vem de fora. É a facilidade com que encontra lugar dentro de nós.
O streaming não tem a solenidade da sala de cinema, é certo. Não há o ecrã grande, nem o silêncio cerimonioso de uma plateia de desconhecidos. Há, em compensação, a casa, a noite lá fora e a liberdade muito contemporânea de interromper o monstro para ir buscar água ou verificar se a porta ficou bem fechada.
Depois, quando o filme acaba, fica sempre aquela dúvida pouco racional, mas bastante antiga: será que a casa era assim tão silenciosa antes de eu carregar no play?

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