Dá-me Lume, Jorge (R.I.P.)
Há vozes que reconhecemos ao primeiro acorde, sem sequer precisarmos de ouvir a letra da canção. A de Jorge Palma sempre foi uma dessas, pelo menos para mim, e foi, por isso, com tristeza que, esta manhã, soube da sua morte, em Lisboa, aos 76 anos.
Nunca fui, confesso, um seguidor atento de toda a sua discografia, nem conheço de memória cada álbum ou cada década da sua longa carreira. O que sei é que canções como “Dá-me Lume” e “Deixa-me Rir” fazem parte de um pequeno grupo de músicas que, de alguma forma, sempre estiveram presentes nos momentos mais variados da minha vida, sem que eu tivesse de fazer qualquer esforço para as manter lá.
“Dá-me Lume” tem essa leveza dançante que nos convence de que uma paixão pode ser, ao mesmo tempo, simples e imensa, feita de olhares inseguros e pequenos gestos que bastam para conter todo um paraíso. É uma canção que ouço sem pensar e que, ainda assim, me devolve sempre a mesma sensação de calor, quase física, logo que os primeiros acordes soam.
“Deixa-me Rir”, por sua vez, é diferente, mais intimista, mais recolhida, e talvez por isso tenha ficado ainda mais comigo com o passar dos anos. Há algo nela de confronto interior, de alguém que se recusa a aceitar uma versão confortável, mas falsa, da própria história. Não sei explicar bem porque é que essa canção me marcou tanto, só sei que, sempre que a oiço, sinto que estou a ouvir alguém falar comigo, e não apenas a cantar para mim.
E talvez o verdadeiro talento de Jorge Palma tenha sido, simplesmente, escrever canções que não pertencem apenas a uma geração ou a uma década específica, mas que se instalam, silenciosamente, dentro de quem as ouve e aí permanecem, prontas a voltar sempre que precisamos delas.
Obrigado, Jorge Palma. Dá-me lume, mesmo que, agora, seja só de memória.

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