O espelho não mente
Há uma leitura fácil de O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde que gosta de imaginar a poção como uma espécie de feitiço de laboratório: bebe-se, e do fundo do frasco emerge um monstro novo, uma criatura fabricada pela química. É uma leitura confortável, porque deixa Jekyll inocente. O problema é que não é essa a história que Stevenson escreveu.
A poção não cria Hyde. Apenas remove a parte de Jekyll que o retinha, essa camada fina de respeitabilidade, de contenção social, de medo do escândalo, que durante anos manteve as sombras trancadas no lugar certo. Mas Hyde não nasce no laboratório, já lá estava, à espera, como está sempre à espera aquilo que reprimimos sem nunca resolver.
Confesso que existe algo de profundamente incómodo nesta ideia, mais incómodo do que qualquer monstro de garras e presas. Porque significa que o vilão não é externo. Não é uma força estranha que nos invade. É uma parte nossa, cultivada em silêncio, alimentada por tudo aquilo que decidimos não dizer, não sentir, não admitir. Na verdade, a poção de Jekyll não é veneno. É apenas um solvente. Dissolve a fachada e deixa aparecer e sair para o mundo real o que aquela linha ténue, a fachada, escondia.
Talvez seja por isso que a história continue tão atual, passado século e meio da sua primeira publicação. Não porque nos fale de cientistas loucos ou de experiências perigosas, mas porque nos obriga a perguntar o que aconteceria se, também nós, encontrássemos a nossa própria poção. Não a que cria algo novo, mas a que simplesmente deixa de suster aquilo que escolhemos não ser.
E aí a pergunta deixa de ser sobre Jekyll. Passa a ser sobre nós: quantos de nós próprios andamos a reter-nos, todos os dias, só porque ainda não bebemos a poção certa?

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