Dois dias, seis paragens

Dois dias, seis paragens. Foi esse o roteiro destas últimas quarenta e oito horas: Castelo Branco, Manteigas, Penhas Douradas, Torre, Viseu e Caramulo, tudo entre compromissos de trabalho, quilómetros de estrada e os desvios que a necessidade e, felizmente, a curiosidade nos vão impondo.

A viagem começou em Castelo Branco, ponto de partida, diria, quase administrativo antes da subida à serra. De lá, a estrada levou-nos até Manteigas, vila encaixada no Vale Glaciar do Zêzere, entre encostas altas e verdes, onde os telhados vermelhos se vão acumulando como se procurassem abrigo na montanha. Vista de cima, Manteigas parece pequena perante a dimensão da paisagem que a envolve, mas, aqui entre nós, diria que é precisamente essa desproporção que lhe dá encanto. A vila não disputa protagonismo com a serra; pertence-lhe apenas.

Seguir para as Penhas Douradas foi continuar a subir, deixando progressivamente para trás a escala humana do vale. Há lugares que nos obrigam a abrandar, não tanto porque a estrada o exige, mas porque a paisagem pede tempo. Entre o granito, os pinheiros e a luz muito particular da altitude, as Penhas Douradas têm esse efeito: fazem-nos sentir passageiros num território que existia muito antes de nós e que continuará, serenamente, depois de partirmos.

A subida terminou na Torre. Ali, junto à pequena capela e sob um céu de um azul improvável, a Serra da Estrela mostra a sua face mais ampla. A vista alcança montanhas sucessivas, vales, aldeias minúsculas ao longe e uma linha de horizonte que parece não terminar. É uma paisagem que convida menos à fotografia do que ao silêncio, ainda que seja difícil não querer guardar uma imagem de tudo aquilo. Do alto, percebemos melhor a geografia, mas talvez percebamos também, ainda que por instantes, a nossa própria medida.

Depois da serra, a viagem levou-nos até Viseu, já de noite. Na Praça de D. Duarte, junto à Sé, a estátua do rei nascido na cidade impõe-se diante da pedra iluminada e das arcadas que enquadram a praça. Há uma solenidade muito particular em ver estes lugares depois de escurecer: as ruas acalmam, as fachadas ganham outra presença e a História deixa de ser apenas uma sucessão de datas para se tornar, de algum modo, uma companhia discreta enquanto caminhamos pelas ruas da cidade.

A última paragem, já hoje, foi o Caramulo. Depois da monumentalidade da Serra da Estrela e da densidade histórica de Viseu, o Caramulo ofereceu outro tipo de contemplação: pinhais, espaços abertos, calor de fim de verão e um relevo mais suave, embora ainda bem presente. Ficou a sensação de que é um daqueles lugares aos quais não se deve chegar apenas de passagem; pede uma visita mais demorada, sem pressa e sem o relógio do trabalho a marcar o passo e a lembrar-nos do regresso.

Talvez seja esta a maior recompensa das viagens que, recentemente, tenho feito em trabalho: obrigam-nos a sair, a atravessar o país e a conhecer lugares que, de outro modo, talvez deixássemos por conhecer. E todos sabemos o que costuma acontecer às coisas que deixamos para mais tarde, certo? Entre Castelo Branco, Manteigas, Penhas Douradas, Torre, Viseu e Caramulo, ficaram muitos quilómetros percorridos, é certo, mas ficou, sobretudo, a certeza de que a nossa terra continua em constante descoberta.

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