Uma noite no teatro: O Clube dos Poetas Mortos

Há filmes que vemos apenas, assim como existem filmes que, para além de os vermos, gostamos também e depois há aqueles filmes que vemos, gostamos e nos marcam de tal maneira que acabam por ficar connosco. O Clube dos Poetas Mortos pertence, pelo menos para mim, a essa última categoria. E é um caso curioso, porque a história, ao contrário do que é habitual, não foi adaptada a filme e a peça teatral a partir de uma qualquer obra literária anterior, mas antes de um argumento original de Tom Schulman, escrito em 1985, a partir das suas próprias memórias de aluno e de um professor de literatura que o marcou para a vida. Só depois do sucesso do filme de Peter Weir, em 1989, surgiu o romance que muita gente ainda hoje confunde com a fonte original, escrito por Nancy H. Kleinbaum a partir do próprio argumento. A peça que vi ontem segue essa mesma linhagem direta, o texto de Schulman, adaptado ao cinema, e não o livro que dele nasceu.

Não sei quantas vezes já voltei ao filme de Peter Weir, nem quantas vezes ouvi Robin Williams, no papel do professor John Keating, dizer aos seus alunos que aproveitassem o dia, que olhassem para as coisas de outro ângulo, que encontrassem a sua própria voz antes de aceitarem viver segundo a voz dos outros. Sei apenas que é um dos filmes da minha vida, daqueles que não envelhecem connosco de forma previsível. Mudam, porque nós mudamos. E cada vez que regressamos a eles encontramos uma frase, um gesto ou um silêncio que, por alguma razão, não tínhamos visto antes.

Foi com essa memória, e com algum receio, que entrei ontem no Teatro da Trindade. Não duvidava da capacidade do teatro para acolher esta história. Duvidava de mim próprio, ou melhor, da distância que conseguiria manter entre aquilo que ia ver e aquilo que já trazia gravado, há tantos anos, na memória.

Não precisava de duvidar. A adaptação, com Diogo Infante no papel de Keating, não tentou repetir Robin Williams, e ainda bem que assim é. Tentou, isso sim, encontrar uma voz própria para o mesmo homem: alguém que chega a um colégio rígido, previsível e profundamente convencido da sua própria excelência, e que começa, com paciência e provocação, a abrir pequenas fendas nessa certeza. Há um momento em que Keating pede aos alunos que rasguem o prefácio do manual de poesia, o texto que reduz a arte, neste caso da poesia, a uma fórmula matemática de avaliação. A plateia estava completamente cheia, e senti a sala inteira suster a respiração, como se todos ali, de alguma forma, também precisássemos de rasgar qualquer coisa.

O que mais me tocou não foi a repetição de "Carpe diem", que corre sempre o risco de se transformar num postal motivacional gasto pelo uso. Foi antes a forma como a peça devolveu peso àquilo que o filme, por vezes, deixa escapar entre a nostalgia e a beleza das imagens: o preço real de pensar por si próprio, dentro de um sistema que não perdoa esse gesto. No palco, sem o conforto do grande ecrã, a pressão sobre os rapazes, sobre Neil, sobre Todd, sobre a rigidez do pai, ganhou uma proximidade quase física. Estávamos todos ali, na mesma sala, a testemunhar em tempo real uma escolha que sabíamos, de antemão, ter um preço caro a pagar.

O colégio de Welton, com os seus pilares de tradição, honra, disciplina e excelência, parece pertencer a um tempo distante. Mas, sentado na plateia do Trindade, custou-me não pensar em quantas versões atualizadas desse mesmo colégio continuamos a habitar. Mudaram os corredores, os uniformes e as formas de autoridade, mas permanecem muitas das pressões: o que devemos ser, o que devemos querer, que sonhos são aceitáveis e que riscos são demasiado perigosos.

A poesia, na peça como no filme, nunca é apenas poesia. É uma possibilidade de linguagem, a descoberta de que existe dentro de nós uma voz que pode não coincidir com aquilo que os outros esperam ouvir. Por isso continuamos a reconhecer-nos em Todd, com medo de falar, e em Neil, com vontade de ser mais do que aquilo que lhe permitem ser. Por isso continuamos, em algum momento da vida, a desejar encontrar alguém que nos ajude a subir para cima da secretária e a olhar o mundo de outro modo.

Houve um instante, perto do final, em que a sala pareceu suspender-se por completo: o gesto de subir para cima das mesas, silencioso, um a um, sem grandes discursos, disse mais do que qualquer réplica poderia dizer. Não foi preciso levantar a voz. Bastou levantarem-se eles.

Saí do Teatro da Trindade, com a confirmação de uma coisa que já sabia, mas que precisava de voltar a ouvir, agora dita por outras vozes e noutro corpo. Carpe diem não é uma ordem para viver depressa, nem uma promessa de que devemos abandonar tudo à primeira vontade. É, antes, um convite a viver com verdade, a não entregar inteiramente a nossa vida ao medo, à conveniência ou às expectativas de quem nos rodeia.

Nenhuma adaptação poderia substituir o filme que guardo comigo há tantos anos, e talvez nem precisasse de o fazer. Bastou-lhe devolver-me, por uma noite, as perguntas que o filme nunca deixou de me fazer: estarei a viver a vida que quero viver, ou apenas a cumprir, com maior ou menor competência, o guião que outros escreveram para mim?

O capitão não regressou igual na noite passada. Regressou através de outra voz, de outro corpo e de outro tempo. Mas a pergunta ficou exatamente onde deve ficar, e onde continua hoje, no dia seguinte: dentro de nós.

Se puderem passar pelo Teatro da Trindade para ver esta peça, fica a nota de que vai valer a pena.

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