A princesa que não se sabia: mito, fuga e o regresso (que nunca é literal)
Esta ideia de revisitar os escritos que tenho no Recanto das Letras tem sido uma verdadeira aventura particularmente prazeirosa, sem prejuízo da nostalgia que me traz, confesso. Há uma coisa que só percebi ao reler "Pipa" depois de o ter escrito: o texto está cheio de convocações explícitas à mitologia e à tragédia, "como Orfeu", "uma verdadeira tragédia, arriscaria dizer grega", "a sua odisseia". Nenhuma destas referências é gratuita, mas confesso que, na altura, as fui deixando cair no texto quase instintivamente, sem me deter a pensar no que realmente significavam quando confrontadas com a história que Pipa vivia. Foi só mais tarde que percebi que essas convocações não decoram o texto. Contradizem-no, subtilmente, e é nessa contradição que reside, talvez, o verdadeiro sentido do conto.
Comecemos pelo mais evidente: o título e a abertura. "Era uma verdadeira princesa, mas não o reconhecia." Esta frase pertence claramente à gramática do conto de fadas, mas de um conto de fadas invertido, porque não há aqui nenhuma bruxa, nenhuma madrasta cruel, nenhum feitiço a quebrar. Há apenas uma ausência, a da mãe, e uma incapacidade de a própria personagem reconhecer o próprio valor. É uma "princesa" sem coroa visível, sem reino, sem sequer a certeza de o ser. E este é, creio, o motor de toda a história: não o que falta objetivamente na vida de Pipa, que tinha pai, avós e um irmão, mas o que falta na sua perceção de si mesma. A tragédia de Pipa não é a orfandade materna em si. É a história que ela construiu sobre essa orfandade, convertendo-a em prova permanente da sua própria insuficiência.
É neste contexto de fuga emocional, e não de aventura desejada, que surge a referência a Orfeu, "como Orfeu, sem olhar para trás". Só ao pesquisar de novo o mito, percebi a ironia que involuntariamente ali coloquei. Orfeu não foi condenado por olhar para trás. Foi Eurídice que perdeu para sempre, precisamente porque Orfeu, no último instante, cedeu à tentação e se voltou para a ver antes de ambos alcançarem a luz. A condição imposta pelos deuses do submundo era exatamente essa: caminhar sempre em frente, sem olhar para trás, até que ambos estivessem salvos. Se Pipa parte "como Orfeu, sem olhar para trás", está, na verdade, a cumprir a única regra que Orfeu falhou cumprir. Mas há aqui uma diferença fundamental que a comparação esconde: Orfeu caminhava em frente para salvar alguém que amava e que o seguia. Pipa caminha em frente para se salvar a si mesma, deixando atrás quem a amava e a seguiria, se pudesse. A referência a Orfeu, por isso, funciona quase ao contrário do que a personagem pretende: em vez de dignificar a fuga com um halo heroico, revela, por comparação, a sua real diferença. Orfeu arrisca tudo por amor a outra pessoa. Pipa arrisca tudo por fuga a si própria.
A tragédia grega que a narração invoca no momento em que a mentira se desmorona, "como se diz na gíria" quando "a verdade assume as rédeas da ação", tem também um fundamento estrutural interessante. As tragédias gregas raramente tratam de vilões conscientes. Tratam, isso sim, de personagens que, por orgulho, ignorância ou desespero, desencadeiam a sua própria queda através de uma decisão que parecia, no momento, perfeitamente razoável. É exatamente esse o mecanismo de Pipa: a mentira sobre o estágio no estrangeiro não nasce de malícia, nasce do desespero de evitar despedidas, justificações e decepções. É um plano que, tal como nas tragédias clássicas, contém em si mesmo a semente da sua própria revelação, a fotografia retirada de uma revista que o pai, por mero acaso, também lera.
Mas é talvez na referência à Odisseia que a inversão do conto se torna mais reveladora. A Odisseia de Homero é, essencialmente, a história de um regresso: Ulisses atravessa mares e monstros durante anos, precisamente porque deseja, mais do que tudo, voltar a casa, a Penélope, a Ítaca. A "odisseia" de Pipa segue exatamente a direção contrária. Não é uma viagem de regresso, é uma viagem de fuga sucessiva, primeiro do pai para a mãe, depois da mãe para um mundo indefinido de dificuldades e maus tratos. Só no final, e de forma significativa, não literal, é que a lógica da Odisseia se restabelece: Pipa não regressa fisicamente a casa dentro do próprio conto, mas regressa emocionalmente à compreensão de que sempre fora amada e cuidada. É um regresso interior, não geográfico, e talvez seja essa a adaptação mais interessante que o conto faz da estrutura homérica: o verdadeiro "nostos", o verdadeiro regresso ao lar, não precisa de ser um regresso físico. Pode ser, e neste caso é, um regresso à verdade que sempre esteve lá, apenas obscurecida pela própria narrativa de insuficiência que Pipa construíra sobre si mesma.
Esta estrutura, aliás, aproxima "Pipa" mais da parábola do filho pródigo do que de qualquer mito grego, ainda que sejam os mitos gregos que o texto explicitamente nomeia. Como no filho pródigo de Lucas 15, há aqui uma partida motivada por um desconforto interior, uma dissipação de si mesma em "amizades rasas e relações de escassez", um período de sofrimento e humilhação em terra estranha, e finalmente uma espécie de arrependimento, embora não dirigido a Deus ou a um pai terreno específico, mas a si própria. A diferença mais significativa, e talvez a mais bonita do conto, é que na parábola bíblica é o pai que corre ao encontro do filho arrependido. Em "Pipa", ninguém precisa de correr, porque a personagem descobre, sozinha, através da dor, aquilo que a parábola ensina através da festa do regresso: que o amor que a esperava nunca deixara de existir, apenas fora, durante todo aquele tempo, sistematicamente ignorado pela sua própria narrativa interior de insuficiência.
E aqui, talvez seja essa, no fundo, a verdadeira génese do conto: não contar a história de uma fuga, mas contar a história de uma autoimagem distorcida que precisa de percorrer, literalmente, meio mundo, para finalmente reconhecer aquilo que estava, desde sempre, ao seu alcance em casa. Pipa não precisava de ser resgatada por ninguém, como as princesas dos contos de fadas tradicionais. Precisava apenas de deixar de se ver a si mesma como alguém que precisava de resgate.

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