Tempo, ou o espelho em movimento

O tempo, essa inexorável corrente que navegamos do princípio ao fim da nossa existência, sem que, até hoje, alguém tenha conseguido compreender o seu real significado, é, no fundo, uma pergunta sem repouso. Medimo-lo com precisão, é certo, mas nunca o dominamos. Nomeamo-lo, também é verdade, mas não o apreendemos. Sabemos, ou melhor, acreditamos, que ele existe na fricção entre o relógio e a consciência, entre o que passa no exterior e o que permanece no interior. E nesta ótica, pensando bem, talvez o tempo não seja apenas duração, mas a forma como a vida se inscreve em cada um de nós: como memória, como perda, como espera e como transformação.

Em boa verdade, talvez o tempo seja, antes de mais, aquilo que nos transforma sem pedir licença, uma espécie de matéria invisível da mudança, o lugar onde a memória se instala e o que vamos perdendo — e que não é pouco — se inscreve. Não pode ser apenas a mera sucessão de segundos, minutos e horas que qualquer relógio mede, porque é também a densidade dos dias, das semanas, dos meses e dos anos, bem como a velocidade da espera, a lentidão da saudade e a vertigem da nossa passagem nesta vida.

E Saramago tem razão: o relógio, com ou sem pêndulo, mede o tempo, mas não o explica, porque ele não passa de um instrumento de medição que a humanidade criou. Diz-nos as horas, mas não nos diz, por exemplo, porque é que certos momentos duram mais dentro de nós do que no mundo real. Um instante de dor pode parecer interminável, assim como um momento de felicidade pode parecer-nos fugaz. E é por isso que somos obrigados a reconhecer a existência de um tempo exterior, objetivo, mecânico, mensurável e tangível, e um tempo interior, subjetivo, íntimo e intangível, que se estende ou se contrai conforme o que vivemos. E é nesse desfasamento — nesse limbo — entre o tempo da máquina e o tempo da consciência que habita grande parte da nossa condição humana.

No fim do dia, talvez o tempo seja menos um rio que nos arrasta do que um espelho em movimento. Nele vemos refletidas as nossas idades, as nossas escolhas, as perdas que nos moldaram e os afetos que nos sobreviveram. O tempo não é só aquilo que passa. É também, e muito, aquilo que fica em nós depois de ter passado.



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