O que o tempo não resolve
No fundo é isto, sim. Crescemos formatados para querer finais felizes, como se nesta vida não existisse outra possibilidade. Ensinaram-nos isso antes mesmo de aprendermos a ler: o bem vence, o amor prevalece, a justiça chega, e tudo se resolve com a elegância que a vida raramente concede. Levamos esse modelo connosco ao longo dos anos, aplicamo-lo às relações, às carreiras, às expectativas que criamos sobre nós próprios e os outros, e depois estranhamos e sofremos quando a realidade não segue esse guião. Como se a vida tivesse alguma obrigação de ser uma narrativa justa.
Mas talvez não seja sobre o final. Talvez seja mesmo sobre o caminho, a estória, por assim dizer.
Esta ideia, à primeira leitura, pode parecer uma resignação disfarçada de sabedoria. Mas não é, acreditem. É, na verdade, uma das formas mais exigentes de estar vivo. Porque valorizar a estória implica estar presente nela, habitá-la com atenção, tirar sentido do que acontece enquanto acontece, e não apenas enquanto se espera por aquilo que foi prometido ou desejado. A maioria de nós vive suspensa entre o que ficou para trás e o que ainda não chegou, e é nesse nenhures, nesse intervalo onde quase ninguém presta atenção, que a história — a nossa, a verdadeira — se vai escrevendo em silêncio, página a página, muitas vezes sem que nos apercebamos.
Há algo de profundamente libertador nesta perspetiva, não acham? Quando deixamos de avaliar a nossa vida pelo critério do final feliz, perdemos a ansiedade do destino, mas ganhamos algo mais raro e mais valioso: a capacidade de perceber o que está aqui, agora, à nossa frente. As pessoas que passaram por nós e nos marcaram, mesmo as que ficaram pouco tempo — e que, tantas vezes, deixaram mais do que as que ficaram muito. As escolhas que fizemos sem saber bem porquê e que, anos depois, percebemos serem as mais reveladoras do que realmente somos. Os momentos de dificuldade que nos obrigaram a descobrir recursos que não sabíamos ter, capacidades que nunca teríamos encontrado se o caminho tivesse sido fácil e previsível. Tudo isso é a estória e faz parte da nossa história. Tudo isso tem peso e valor, independentemente de onde termina.
E há também aquilo que ficou por dizer, por fazer, por resolver. Os capítulos que encerraram antes de estarmos prontos. As relações que se desfizeram sem cerimónia. Os projetos que não chegaram ao fim que imaginávamos. Há uma tendência para classificar tudo isso como fracasso, como algo que não deveria ter acontecido, como desvios de uma rota que afinal nunca existiu. Mas talvez esses momentos sejam precisamente os que mais nos formaram, os que mais honestamente nos definiram, os que mais nos aproximaram de quem somos quando ninguém está a observar.
Fico muitas vezes com esta ideia quando olho para trás e vejo os capítulos que já passei. Nem todos terminaram bem, pelo critério convencional. Alguns ficaram em aberto, outros encerraram-se de formas que não escolhi e que demorei tempo a aceitar. Mas as estórias, bem… essas foram minhas e fazem parte da minha história, da história que me fez chegar aqui. E, talvez por isso, ainda valha a pena contá-las, quem sabe, um dia.

Comentários
Enviar um comentário