Roma, dois anos depois

Há dois anos, mais ou menos, partia para aquela que seria a minha primeira grande aventura em solitude. Não era apenas uma viagem. Era, sem que então o soubesse por inteiro — embora já o suspeitasse —, uma prova silenciosa de maturidade. Muito mudou em mim desde então, embora a verdade seja que essa mudança já vinha de trás, como certas marés que se anunciam muito antes de darem à costa.

Confesso que não foi fácil. Nunca viajara sozinho. Mais do que isso, nunca verdadeiramente vivera sozinho antes. Havia, por isso, qualquer coisa de vertigem e receio nessa partida: a sensação de me arrancar ao conhecido e de me entregar ao desconhecido e, sobretudo, a mim mesmo, sem a confortável mediação da presença dos outros.

Mas Roma acolheu-me como só ela sabe acolher. Com a sua grandeza serena, a sua beleza cansada e eterna, o peso da sua história e a leveza quase inexplicável das suas manhãs, a cidade foi-me desarmando e encantando a cada passo. Aos poucos, deixou de ser apenas um destino e passou a ser uma espécie de espelho. Nela, entre ruínas e praças, entre igrejas e silêncios, fui descobrindo não apenas lugares, mas zonas em mim que, até então, permaneciam por habitar.

Quando parti, levava comigo receios, hesitações e uma profunda estranheza perante o vazio de uma solitude que temia transformar-se em solidão. No regresso, algo havia mudado: trazia ainda algumas perguntas interiores no bolso, é certo, mas já não carregava o mesmo temor. Havia em mim uma serenidade nova e uma confiança discreta, alicerçadas na percepção de que a nossa própria companhia também se (re)aprende — e que, por vezes, é preciso partir sozinho para, finalmente, regressar na melhor companhia: a nossa.

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